sábado, 9 de janeiro de 2016

Ano Novo



O rio do tempo passa devorando flores e amores
Passeiam na margem os contempladores
Centenários plátanos espelham-se nas águas do Letes

Meninas de branco dão as mãos e olham interiores
Plenos de sonhos e desejos de amores
As águas cantam e choram alegrias e tristezas
Do bando chilreante da brancura que a negrura guarda

Voar em busca do futuro depois da curva do rio
Que esconde novos seres a descobrir e a criar
E as meninas de branco a aguardar
De olhos glaucos na curva do rio
Sentem no corpo o desejo forte do amor
É a ele que amam com fervor
Ele é o guia do devir

Aos pares vão banhar-se nas águas sanguinolentas
Da procriação ininterrupta que alimenta o mundo
O coração dilata-se e é uma casa grande
Abre-se a mesa e todos ceiam
Este é o meu corpo






poesia zed, 2 de janeiro

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Que não seja hoje




Amo eternamente as amigas que partem sem dizer adeus
com mãos de açucenas e rosas brancas em paragem de mil trabalhos
Não há acenos que agitem a chama das velas em silêncio
Enlouquecem os rios que moram nas entranhas e desaguam no vazio
Que emerge sob o sol escaldante da mágoa
E numa fraga o grito aberto ecoa a dor que preside à existência
Crocitam os corvos embelezados de ébano em revoada
O dia é de enganos
Que não seja hoje que não seja hoje
A Primavera intumescida de seiva rebenta
Em flores chilreios zumbidos

Que não seja hoje

Apaziguo com missas e sortilégios
as mágoas que enegrecem os dias de luto tenaz
Da morte anunciada a todos os que respiram
na certeza do estertor final
Em avião assassino
Em bote mediterrânico
ou em camas de delícia e  dor

Que não seja hoje

1 de Abril 2015- a pensar Isabel
zed, diário 2015                                                                                    


domingo, 27 de dezembro de 2015

PENÉLOPES




 

Bordo o avesso da colcha que cobre a vida
Um ponto atrás do outro em pé de flor silvestre
Jardim singelo por onde a agulha passeia
Em trabalhos de mulher  penélope tece a manta
Da espera ardilosa de um tempo a preencher
Canta a cotovia depois a cigarra
Pia o pardal cai a neve e é natal e há-de ser verão
Talvez o vejas ou não

poesia zed


Anna Ancher (artista Danes, 1859-1935) La Esposa del Pescador de Costura

PENÉLOPE

Desfaço durante a noite o meu caminho.
Tudo quanto teci não é verdade,
Mas tempo, para ocupar o tempo morto,
E cada dia me afasto e cada noite me aproximo.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral , Potugália Editora, p.80