terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

A Criação literária

Maio de 2026, Maria José Domingues

«É como leitores que nós somos ‘literatura’»[1] (Eduardo Lourenço, «O homem como literatura»)

De facto, o leitor é essencial à realização da arte literária. Entre escritor e leitor, circula uma mensagem veiculada por um texto. Sem leitor, o circuito comunicativo não funciona. 

Cresci a ler e digo que a leitura ajuda ao crescimento interior, à aprendizagem da Língua, ao conhecimento do mundo e é uma ótima companheira. Por tudo isso, acredito que a leitura é necessária, muito útil e prazerosa.

A minha primeira fonte de livros e a de muitos da minha geração foi a carrinha da Gulbenkian, que passava regularmente pela minha aldeia e por muitas outras. Grande iniciativa a das Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian. Foi criador e seu primeiro diretor o presencista Branquinho da Fonseca[2], defensor da liberdade de criação artística, em tempo de Estado Novo. 

A arte literária inicia-se pela poesia. Antes da escrita, era a poesia fixada na memória para ser dita ou cantada e difundida pela tradição oral.

Por volta do séc. VII a. C., temos, na Grécia, os Poemas Homéricos, A Ilíada e a Odisseia, a serem declamados por rapsodos ou cantados por aedos. Obras imortais pelo seu valor inaugural e por terem sido considerados os poemas educadores e modelares da Grécia, passando depois a Roma e expandindo-se para os países greco-romanizados. Eles abrangem os seguintes domínios: a religião, a poesia, a língua, os costumes e ideias (H. Rocha Pereira, Estudos de História Clássica, vol. I - Cultura Grega, pp 50-138).  Na poesia , são o modelo da poesia épica subsequente (proposição, invocação, lançar a narrativa in media res, etc.- regras que Virgílio cumpre na Eneida, séc. I a.C., e Luís de Camões segue em os Lusíadas, séc. XVI, d.C.) e influenciam consideravelmente a poesia lírica (poesia pessoal de sentimentos e emoções, cantada ao som da lira).

Para que o modelo de criação literária não se extraviasse, estabeleceram-se regras a cumprir na poesia. Quem codifica essas regras é  Aristóteles na obra intitulada Poética, datada do séc. IV a.C. Aristóteles declara no início do primeiro parágrafo «Falaremos da arte poética […]»[3]. A literatura escrevia-se em poesia, com regras poéticas bem determinadas. O criador poético não era livre na sua arte, seguia o cânone estabelecido.

Apresenta Aristóteles duas causas para a poesia: a 1.ª é a imitação (mimeses), própria dos humanos, pois é assim que aprendem a falar e os seus primeiros conhecimentos; a 2.ª causa é o prazer que se sente nas imitações.  Considera imitações a epopeia, a tragédia, a comédia e a poesia lírica. E afirma que todas realizam imitação por meio do ritmo, das palavras e da harmonia. Acrescenta «que aqueles que tinham mais propensão para estas coisas (…) criaram a poesia a partir de improvisos».

A literatura grega primordial influenciou os escritores ao longo da história da literatura.

Mais tarde, o latino Horácio em A Carta aos Pisões, final do séc. I a.C., sua Arte Poética, sobre a função da poesia escreve: «Instruir ou deleitar pretende o poeta / ou mesclar c’o jucundo o útil à vida /». Crítico exigente para os não cumpridores da regra, admite «faltas que o perdão merece», «em grande obra»:

(…) Contudo há faltas que os perdões merecem / (…) Mas sofra se dormita o bom Homero / Permita-se em grande obra um grande sono»[4]. 

Depois de refletirmos sobre a importância da criação poética na Antiguidade Clássica, demos um salto no tempo e vejamos rapidamente o que se passava em Portugal, na Idade Média. Falava-se na Galiza e no Condado Portucalense o galaico-português. Em galaico-português, cantavam-se as cantigas medievais: as cantigas de amigo, as cantigas de amor e as cantigas de escárnio e maldizer.

Os mais antigos textos literários portugueses em verso foram reunidos em Cancioneiros, a partir do séc. XIII e do Séc. XIV, reunindo textos desde o séc. XII.

A evolução do galaico-português para o português foi-se fazendo, acelerando certamente com o estímulo da independência do Condado Portucalense[5].   

Saltemos agora para um escritor português do século XX, ainda que nascido no séc. XIX: Fernando Pessoa (1888-1935), poeta do primeiro Modernismo português.

Vejamos então o que nos diz Pessoa acerca da criação literária e sobretudo da poesia. Talvez seja ele um dos poetas portugueses que mais analisa esse ato criador.
Ele inscreve-se no cortejo de poetas, iniciado na Antiguidade grega. Num texto em prosa, Ricardo Reis, o heterónimo ligado ao classicismo, afirma:

«Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero. A novidade, em si mesma, nada significa, se não houver nela uma relação com o que a precedeu. Nem, propriamente, há novidade sem que haja essa relação»[6]. 

Sobre a arte em geral, Pessoa escreve: «Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade» que é «pessoal e intransmissível»[7].

Então o poeta, pessoa sensível, recolhe as sensações, para depois, pelo trabalho intelectual, as trabalhar em poemas. Para chegar aí, é necessária a inspiração e «encontrar por instinto as frases e ritmos que reduzam a sensação à frase Intelectual. Segue-se a reflexão crítica».  E Pessoa considera dois tipos de artista.  «o inspirado e espontâneo» e o «reflexivo e crítico que elabora, por necessidade orgânica, o já elaborado». Enquanto o inspirado e espontâneo atinge o primeiro grau da poesia, o reflexivo e crítico pela intelectualização pode atingir o segundo ou o terceiro grau da poesia, enquanto o 4º grau é muito mais raro, pois o poeta ainda mais intelectual e imaginativo, entra em plena despersonalização e pode atingir a poesia dramática. E cita Shakespeare, na peça Hamlet, Príncipe da Dinamarca, no diálogo entre o rei Lear e o seu filho Hamlet. E podemos nós citar os poemas dos heterónimos pessoanos.

No trabalho poético, a musicalidade é de enorme importância - «De la musique avant toute chose» - escrevia Verlaine, na sua Arte Poética em 1885 e repetia: «De la musique, encore et toujours.  E surge a pergunta como se musica um poema e Pessoa responde: «musicar um poema é acentuar-lhe a emoção, reforçando-lhe o ritmo». 

Dentro da poesia lírica, recordo a leitura da obra de António Nobre, Só, «o livro mais triste que há em Portugal», segundo o autor.

António Nobre morreu em 1900 com 35 anos. Pessoa considerou-o o interpretante do ser português e escreveu sobre a sua obra poética, em «Para a memória de António Nobre», texto datado de 1915:

«De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. […]  ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas […] quando ele nasceu, nascemos todos nós. […] A tristeza, que cada um de nós, traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem com certeza vivida, é, afinal, a súmula da vida que vivemos […]». 

Acrescente-se ao cortejo poético que parte de Homero, Sophia de Mello Breyner Andresen, outra poeta inscrita na cultura clássica grega.  A sua poesia dividida entre essa cultura e a experiência pessoal tem uma ambiguidade geradora do seu trabalho poético. Sophia escreveu a sua Arte Poética, em 5 textos em prosa, separados no tempo e no conteúdo.

 Em Arte poética I, o texto em prosa. inscreve-se no sol e no calor, em caminhada até ao artesão do barro, onde encontra ânforas – símbolo da Antiguidade e da cultura grega. Compra uma, cor-de-rosa pálido, que transporta e coloca no muro do seu jardim, entre ela e o mar (um dos tópicos da sua poesia). E escreve: aquela ânfora «é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas. Aliança ameaçada. Reino que com paixão encontro, reúno, edifico. Reino vulnerável. Companheiro moral da eternidade» [8] .

Na Arte Poética II, Sophia fala da sua poesia feita na base da sua inteireza conscienciosa, intransigente, atenta «como uma antena» e da sua relação com o real numa vida concreta e, simultaneamente, da sua explicação com o universo. Valoriza esta relação escrevendo: «É esta relação com o universo que define uma obra de criação poética».

A Arte Poética III (apresentada em 1964, aquando da receção do prémio da Sociedade de Autores, pelo Livro Sexto) dedica-se ao real e à justeza a esse real que o poeta capta e transmite, lançando esse mesmo olhar sobre o homem e o seu sofrimento. E escreve: «E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar justiça pela própria natureza da sua poesia». E acredita que a obra de um artista influenciará «a vida e o destino dos outros».

A Arte Poética IV começa com o nome Fernando Pessoa e o seu dito, segundo ela, «Aconteceu-me um poema», no qual ela se revê. E escreve: «sei que o poema aparece, emerge, é escutado num equilíbrio especial da atenção, numa tensão especial da concentração (…) quando o poema se quebra, como um fio no ar, o meu trabalho a minha aplicação não conseguem continuá-lo»[9]. De onde vem esse poema, quem o faz, pergunta-se. Os antigos chamavam-lhe Musa. O poema pode aparecer ordenado, desordenado, incoerente, mas não pode ser tocado até chegar ao fim, segue-se o trabalho poético e intelectual de o organizar. Outra forma de criação poética, surge-lhe enquanto escreve um texto em prosa sobre um tema ou uma pessoa. Curiosamente, Fernando Pessoa também escreve sobre essas duas   formas da nascença de um poema. 

Falamos da Poesia. juntemos-lhe agora a outra forma de expressão da arte literária, a prosa. Poesia e prosa têm em comum a palavra e a pausa com pontuação ou sem ela.

O material da Arte literária - poesia e prosa - é a Palavra, isto é, o signo linguístico com o seu corpo escrito ou vocalizado – o significante; e com o significado que tem e os sentidos que evoca; a Palavra é a consubstanciação do significante e do significado.

As palavras organizadas em discurso geram a linguagem falada ou escrita. A poesia libertou-se e tem agora um discurso mais livre ou até um não discurso, que pode ter ou não uma mensagem. Lembro a poetisa Ana Luísa Amaral, numa entrevista à Lusa, afirmar que «a poesia não tem de ter mensagem nenhuma».

A poesia e a prosa são as duas construções da arte literária. E peguemos nas palavras de Eça de Queirós, a propósito de um concurso na Academia: «Como se pode, meu Deus, comparar livros de verso com livros de prosa, quando a natureza das duas formas e as propriedades que as caracterizam são essencialmente diferentes»[10]

Eça de Queirós, o artista literário em prosa, falecido em 1900, cuja obra foi recebida e «se impôs com um carácter de deslumbramento no trânsito do século XIX para o século XX», tendo havido um decréscimo no pós-guerra, para «eclodir em 1945, no centenário do seu nascimento, em Portugal e no Brasil e, depois, expandindo-se mundo fora, «pela alta qualidade de sua criação novelística» e «a originalidade da sua conceção estética» - segundo Guerra da Cal[11], estudioso do seu estilo. E continua: «O culto da forma era para ele uma obsessão» e cita a Correspondência de Fradique Mendes, obra que fui buscar à estante para consultar diretamente. E então li «A Forma, a beleza inédita e rara da Forma, eis realmente, nesses tempos de delicado sensualismo, todo o meu interesse e todo o meu cuidado. Decerto eu adorava a Ideia na sua essência; - mas quanto mais o Verbo que a encarnava»[12].  E, nem sempre, a Ideia cabe totalmente no Verbo. Cria-se assim uma busca da perfeição estilística por parte de Eça para «encarnar o Invisível no Visível», duelo do espírito com a linguagem.  «Enfim, o que Eça perseguiu durante toda a sua vida foi realizar a mais perfeita prosa artística, e nesse empenho inaugurou uma nova era na arte de escrever em português» - conclui Guerra Da Cal.

E Eça realça a imortalidade almejada pelo escritor no Prefácio de «Azulejos» do Conde de Arnoso: «E depois, amigo, a arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo da vida – que é não ser apagada de todo pela morte. […] A única esperança que nos resta de não morrermos absolutamente como as couves é a fama, essa imortalidade relativa que nos dá a arte.».  E mais adiante escreve: «A Arte é tudo, porque só ela tem a duração – e tudo o resto não é nada. Só um livro pode fazer a eternidade de um povo» (Notas Contemporâneas, 108-110). 

Pessoa, Sophia e Eça evolucionaram a arte literária, acrescento-lhe José Saramago.

Saramago é um fazedor de obras literárias em prosa, tal como Aristóteles definia o poeta: «o poeta é um fazedor». Fazer é um dos lemas de Saramago, o operário da escrita, ele escrevia duas páginas diárias, depois de iniciada uma obra.

 Ouçamo-lo: «Eu comporto-me mais como um operário que se senta prosaicamente a trabalhar e que faz o melhor que pode» (El Mercurio, Santiago do Chile, 30 de novembro de 1994).

 E que faz esse operário, Saramago explica:  traduz «um sistema de sinais: emoções, pensamentos, sonhos, devaneios. Isso é uma tradução. Porque tudo isso constitui uma linguagem que, se não encontrar uma forma comunicável de transmissão, fica cá dentro da cabeça de cada um de nós»[13]  «O autor é o primeiro tradutor da sua obra» - disse ele, na sua última entrevista.  Digo eu: de dentro para fora, na busca da melhor palavra, do melhor discurso.

José Saramago preocupava-se com a linguagem e diz nessa última entrevista:

 «Para mim o mais importante de tudo é a linguagem. (…) mais do que a história (…) a literatura é 70% linguagem».

Saramago com os seus romances quer demarcar-se dos romances de família característicos do séc. XIX – XX, e explica: «eu necessito que se me apresente uma ideia (…) que ponha cá fora alguma preocupação minha. De repente proponho ao leitor um pacto: você aceita o que lhe proponho…»

Na última entrevista, em outubro de 2009, dada no Palácio Galveias, com o propósito de celebrar a biblioteca onde ele, a partir dos 17 anos, teve contacto direto com os livros e foi um grande leitor, ele informa sobre a sua criação literária. O entrevistador faz a pergunta direta: «Como é o seu processo criativo?»

E José Saramago responde:

«Normalmente o que acontece é que tenho muito claro o princípio e muito claro o fim. (…) e o que eu costumo dizer é que um romance meu cresce como uma árvore.

Uma árvore, segundo a espécie a que pertence, tem um limite: chega a uma certa altura do seu crescimento e pára, fica ali. (…) E para mim o romance é isso: chega o momento em que o romance decide acabar e não vale a pena prolongá-lo».

 

Conclusão 

Com o romantismo há uma libertação das regras clássicas, embora essas regras não tenham sido esquecidas.  Segue-se o Modernismo, movimento libertário, iniciado pela vanguarda portuguesa, na qual se distingue Fernando Pessoa. Essa liberdade foi celebrada por estes quatro Mestres, cada um à sua maneira, conseguindo que as suas obras abalassem a sociedade conservadora de Portugal e com esse objetivo.  Saramago foi o mais abalador com novos temas (As intermitências da Morte, O Ensaio sobre a cegueira, etc.), mas, sobretudo, com temas bíblicos, nas obras O Evangelho segundo Jesus Cristo e Caim.

Nesses referidos escritores verificamos a preocupação com a linguagem usada para bem da língua portuguesa e o lançar da agitação ideológica para o seu abalo e ,consequentemente, para o crescimento da cultura portuguesa.

Ao longo dos tempos, estes escritores têm sido estudados na Escola portuguesa. Hoje, Saramago está a ser posto de lado. Também sobre isso José Saramago dá a sua opinião na última entrevista: «francamente acho que a leitura obrigatória para o 12º ano não deveria ser o Memorial do Convento, que levanta uma infinidade de problemas para os quais os alunos com essa idade não estão nada preparados» e sugere A Escola do Paraíso de José Rodrigues Migueis, que considera «um excelente livro».

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Lourenço. Eduardo, Do Homem com literatura

[2]Branquinho da Fonseca nasceu em maio de 1905 em Mortágua. Era filho do escritor Tomás da Fonseca. Estudou Direito em Coimbra, onde colaborou com José Régio e João Gaspar Simões na fundação da revista Presença. Escreveu contos, novelas, romances, poesia e teatro. Foi diretor do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães e criador e primeiro diretor das Bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Para compreendermos Branquinho da Fonseca, "deveremos lembrar a principal característica desse movimento: a total liberdade de criação artística, movida pela necessidade de cada qual poder assumir a sua própria verdade e sensibilidade, donde a assumpção de um individualismo subjectivo bastante descomprometido com o social e o político [...]”. «Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Lisboa, 1999». Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Lisboa, 1999

[3] Aristóteles, Poética, Fundação Calouste Gulbenkian, 3ª edição, pp. 33-44.

[4] Horácio, Arte Poética, Carta aos Pisões, traduzida em verso por António José de Lima Leitão, Lisboa, 1827.

[5]O «documento mais antigo escrito em português data de 1175 – início do século XII, quando era D. Afonso Henriques Rei de Portugal. Este documento designa-se “Notícia de Fiadores” e faz parte do espólio do Mosteiro de São Cristóvão de Rio Tinto. Neste documento são identificadas as dívidas de Pelágio Romeu». https://www.up.pt/portuguesuporto/historia-da-lingua-portuguesa/, 7de maio de 2026, 11, 39 horas. A “Notícia de Torto” foi escrita entre 1211 e 1216, provavelmente em 1214 – início do século XIII (Idem,11,50 horas).

[6]  Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 390.

[7] In Páginas de Estética e de Teoria e Crítica literárias de Fernando Pessoa – Obras Completas de Fernando Pessoa, por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Coleção Prosa. Edições Ática, 2ª edição.

[8] Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra poética, p.890

[10] (Queirós, Eça, Notas Contemporâneas, A Academia e a Literatura, carta a Mariano Pina, 1888, Edição Livros do Brasil).

[11] Guerra Da Cal, Língua e Estilo de Eça de Queiroz, 4ª edição, Livraria Almedina, Coimbra – 1981. As citações deste parágrafo são das pp. 41 a 55.

[12] Queiroz, Eça, A Correspondência de Fradique Mendes, pp11-12, Edição Livros do Brasil, Lisboa

[13] Santos, José Rodrigues dos, «A última entrevista de José Saramago», Gradiva, 2011, 1ª edição.

domingo, 8 de março de 2026

Moleirinhas

 

À BLÉ

Às cinco da tarde
O chá arrefece
É inverno
E escurece

As sombras dançam
Mudas e tristes
Tecem cilícios
Tu não resistes

Chora mulher
Os olhos pasmam
Na tua dor
Ouve-se o sino
Seja quem for

É uma amiga
Do coração
Fica a saudade
E a solidão

Nas caminhadas
Em cantilenas
Com oitenta anos
Bem bonito rol
Pel’a estrada fora
Toc-Toc-toc

Onde estás Amiga
Que não te vejo

No meu pensamento
No meu coração
Onde não respondes
À minha questão

ZéD. Fevereiro de 2026

 

 

segunda-feira, 8 de abril de 2024

PONTO DE LUZ – CÉREBRO 

 De onde a recordação primordial do paraíso
 O útero materno o paradigma
 
Ao paraíso uterino segue-se a expulsão 
Eis a primordial recordação 
 Ao túnel escuro segue-se a luz 

O ponto de luz 
 Aquele que te conduz 
 Na viagem espiralada
 Luminoso e gélido 
 Indiferente 
 Absolutamente 

 Os humanos que acrescento 
 Ternura e amor 
 Aquecimento sideral 

 Expulsos os vendilhões 
 A consciência de si 
 Em vaivém 
 Ora do lado de cá 
 Ora do lado de lá 
 Imagens 
 Rostos amados 
Clamam 
Prendem 
Em laço quente 
O tal 
 O exclusivo da gente 

 (VIAGEM A ÌTACA), poesia zed, 10/06/08

sexta-feira, 10 de junho de 2022

 

Never More 

 

Grasna o corvo

 

E o seu grasnar

É o ponto de acordar

 

Grasna o corvo

 

Não adormeças

Mil imagens negras

Fazem a ronda

Em negro cantar

 

É hora de levantar

 

Não mates o corvo

Mau companheiro

Do acordar

 

Levanta-te

Enfrenta-o

Deixa-o a pairar

No fundo do tempo

Em inspiração

Do cortejo poético

na eterna canção

Em melopeia

Sempre

 

Abril de 2013  zed (lendo The raven de Allan Edgar Põe)

 

Abril de 2013

 

Glicínias violáceas em caramanchão

Pendem ao sol plenas de vida

Zunem os zângãos e escondem-se as abelhas

Em cones profundos olorosos de doçura e claridade

Indiferentes aos contendores em mesa azul

De bola branca em ritmo binário até à quebra

De página retomada em folha nova a brotar

Bem junto ao cacho em flor soprada pelo zéfiro

Em debandada de pétalas de tapetes pascais

Esmagadas na efémera beleza do jogo da vida


2013 - ZED

 CASA 

 

Eu sou a minha casa e habito-me

Em horas pacificadas de solitude

Ou perdida no meio do nada

De coisa nenhuma

 

Eu sou a minha casa e habito-me

É alva a sala de estar

Onde estendo a consciência de mim

E a perco em alvar intemporalidade

Até à perdição da sala do relógio

Do tempo marcado pelos outros

E os outros também sou eu

 2013 -ZED

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A «conversão» de Eça de Queiroz nos CONTOS «A Perfeição» e «Civilização»

O século XIX em Portugal decorreu entre dois importantes acontecimentos históricos que envolveram um grande sofrimento nacional: as invasões francesas, em 1808[1], e o Ultimato inglês[2], em 11 de janeiro de 1890.

Na década de 1870, surge uma geração de intelectuais, a chamada geração de 70, na qual se inclui Eça de Queiroz, com uma atitude crítica escarninha para com Portugal face aos países ditos civilizados – França, Inglaterra, Alemanha.

Segundo Eduardo Lourenço, essa geração pretendia, através da crítica exacerbada e contundente à Pátria, «desentranhar do Portugal quotidiano, mesquinho e dececionante, um outro, sob ele soterrado, à espera da oportunidade de irromper à luz do sol» (LOURENÇO, E., O Labirinto da Saudade, 1982: 99).

Essa atitude de crítica «exacerbada» teve o seu ponto de viragem em janeiro de 1890, com o Ultimato inglês, que despoletou a grande crise nacional, enquanto unia os portugueses num sentimento patriótico e fazia surgir, num momento de exaltação, a convergência de todas as imagens culturais da Nação (idem: 106).

Antero afirmava em carta a Oliveira Martins, datada de 25 de Janeiro de 1890, que «não estava ainda tudo morto, nem podre, nesta pobre terra», salvava-se o genuíno povo português, na sua saudável reação patriótica, tal como em todas as crises em que a alma nacional esteve em causa — alma essa que Junqueiro soube captar, prontamente, no seu grito de indignação contra o Ultimato, publicando em fevereiro de 1890, Finis Patriae.

A referida reação contra o Ultimato inglês gerou, um ano após a carta de Antero, a primeira revolta republicana, que eclodiu no Porto, em 31 de janeiro de 1891, tendo sido sufocada de imediato

À conversão de Antero seguiu-se a de Guerra Junqueiro, de Oliveira Martins, de Teófilo Braga e também a de Eça de Queirós com as obras A Cidade e as Serras e a Ilustre Casa de Ramires, publicadas depois da sua morte em 1900. Porém, antes dessas duas obras maiores, Eça revela a mudança de paradigma em contos publicados a partir de 1892.

Lendo a obra CONTOS[3], com declaração de que foram «escritos entre 1874 e 1897», seleciono dois, reveladores da «conversão», que aconteceu depois do Ultimato inglês, de acordo com as datas da «Nota Final» de Maria Helena Cidade Moura.

O conto «A PERFEIÇÃO», publicado em maio de 1897, poderia ter tido a intenção de mostrar que, desde a antiguidade clássica, na Odisseia,está  escrito que a perfeição não é a condição realizadora da felicidade humana. Nesse conto, Ulisses encontra-se na ilha paradisíaca de Ogígia com a ninfa Calipso que o retém porque muito o ama e, por isso, o livra de todos os males, até mesmo da própria morte, e lhe proporciona os maiores prazeres, sem qualquer trabalho.

Contudo, Ulisses, saudoso de Ítaca e da sua família, olhava o mar em sofrimento até às lágrimas, desejoso do regresso. A deusa Atena intercede por ele junto de Zeus, que envia Mercúrio a Calipso, para que o liberte e o ajude a sair da ilha. E assim acontece. De novo, Ulisses vai enfrentar os perigos terríveis que o esperam mesmo em Ítaca, onde terá de fazer a guerra aos pretendentes, que aguardam a notícia da sua morte, para se apoderarem do que lhe pertence.

Este conto pode ser lido com uma ligação ao conto «Civilização», publicado, anos antes, em outubro de 1992, no qual Jacinto, em Paris, boceja de tédio, apesar de rodeado de tudo aquilo que a civilização lhe pode dar, desde o mais pequeno objeto até ao seu palacete, «o jasmineiro».

Nessa época, o tédio envolve certos escritores e intelectuais dos países mais civilizados, entre os quais estaria o nosso Jacinto a definhar.

A sua visita à quinta de «Torges», preparada ao longe com mil cuidados, sem que nada aconteça no local, faz com que chegue de surpresa. O caseiro e a sua família é de improviso que recebem Jacinto e seu companheiro de viagem, o narrador do conto. Assim, preparam o célebre jantar serrano, que vai deliciar o paladar sofisticado de Jacinto, e uma repousante dormida no chão.

Os dois contos ligam-se pela problemática humana da insatisfação, mesmo na perfeição paradisíaca organizada. Afinal, na imperfeição, pode estar o desafio da construção realizadora.

No caso de Jacinto, a reconstrução da casa e o zelo da quinta vão enchê-lo de vida e afastar o tédio. Conclui-se que não falta que fazer em Portugal. Já assim falava Ega a Carlos e a Maria Eduarda, em Os Maias:

«No fim, este diletantismo é absurdo. Clamamos por aí, em botequins e livros, «que o país é uma choldra». Mas que diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas ideias?... V. Ex.ª não conhece este país, minha senhora. É admirável! É uma pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questão toda está em quem a trabalha. Até aqui a cera tem estado em mãos brutas, banais, toscas, reles, rotineiras.... É necessário pô-la em mãos de artistas, nas nossas. Vamos fazer disto um bijou!...»

Preparava-se a reviravolta das mentalidades.

Destaque-se a importância do conto «CIVILIZAÇÃO» como génese da obra A Cidade e as Serras, na qual se vai explanar a problemática do regresso à pátria, não para fazer a guerra dos pretendentes a que Ulisses se sentiu obrigado, mas para reconstruir e para se ser feliz pela realização em obras e amor. Tudo isso contado pela voz do amigo e companheiro, o narrador Zé Fernandes.

21 de fevereiro 2021

Maria José Domingues

 

 

 

           

           

           

 



 [1] Note-se que 1807 fora o ano do ultimato francês e espanhol, que obrigava Portugal a declarar guerra à Inglaterra ou a ser invadido. Em consequência, a família real partiu para o Brasil, onde permaneceu durante 14 anos, e, a partir de 1808, Portugal foi transformado em campo de batalha entre ingleses (fortalecidos pela resistência popular) e franceses, até ao Congresso de Viena (1814-1815) (MARQUES, A.H.O., 1972: 577-580).

[2] Recorde-se que, segundo esse documento, Portugal era obrigado a renunciar a eventuais pretensões sobre o território que ligava Angola a Moçambique (hoje a Zâmbia e a Rodésia), provocando a morte do sonho nacional do chamado Mapa Cor-de-Rosa – a ligação por terra de Angola a Moçambique, constituindo, desse modo, um só território, um novo Brasil. Em 20 de Agosto do mesmo ano, nas negociações do tratado anglo-português, entre outras cláusulas, ficara assente que a Inglaterra reservava «o direito de se pronunciar sobre o destino das colónias portuguesas» (RAMOS, R., 1994: 142).

[3] Sigo a obra Contos – Obras de Eça de Queiroz, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 17ª edição.