Mostrar mensagens com a etiqueta ODISSEIAS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ODISSEIAS. Mostrar todas as mensagens
domingo, 18 de abril de 2010
Abril
E estamos em Abril. ABRIL! Não tinha dado conta que era ABRIL
Que viagem fizemos desde aquele ABRIL de 1974 até este abril de 2010?
Da Esperança à conformidade desiludida.
Do SONHO à realidade nua e crua de um pequeno e pobre país europeu, apertado entre a Espanha e o Mar.
Claro, ninguém nos impede de sonhar.
Aí somos livres e cantamos o fado até desesperar.
A Europa em crise: quem semeia ventos colhe tempestades.
É a Hora do balanço da colonização europeia?
Quem a começou? A Grécia? Portugal?
Como foi conduzida?
Onde ficou o humanismo cristão da colonização imperial europeia inauguradora da época moderna?
Na ganância, na exploração, no roubo?
Na imposição do modelo europeu, em nome do atraso dos autóctones?
Claro, ninguém nos impede de sonhar.
Aí somos livres e cantamos o fado até desesperar.
E estamos em Abril. ABRIL!
Não tinha dado conta que era Abril, o mês do 25.
25 expectativas? Não as reduzas à economia e finanças!
O mundo tem outras andanças.
E a liberdade? e a expressão? e o blogue? e o amor?
Pelo sonho, pelo sonho é que vamos.
E o pão e a habitação e a saúde?
É a discussão: uns dizem que sim e outros que não.
Não duvides: ganhamos o direito à expressão.
sábado, 17 de abril de 2010
ÍTACA de C. Cavafy
ÍTACA de C. Cavafy
«Quando empreenderes a viagem para Ítaca
pede que o caminho seja longo,
cheio de aventuras, cheio de descobertas.
Pede que o caminho seja longo,
e numerosas as manhãs
em que os teus olhos descubram um porto ignorado
e numerosas as cidades onde buscarás o saber.
Conserva sempre no coração a ideia de Ítaca.
Deves alcançá-la, é o teu destino
mas não forces a travessia.
Mais vale que ela dure muito tempo
e que sejas velho quando deitares a âncora,
enriquecido com tudo o que tiveres encontrado no caminho
sem estares à espera de mais riqueza ainda.
Ítaca deu-te uma bela viagem
sem ela não terias partido.
E se a achares pobre, não é que Ítaca te enganou.
A sabedoria que adquiriste
permite-te compreender o sentido das Ítacas.
Mais além, deves ir mais além
das árvores que te prendem
e quando as tiveres ultrapassado
Trata de não parar.
Mais além, deves ir mais além
além do presente que te prende ainda
e quando estiveres solto
retoma de novo a viagem.
Mais além, sempre mais além,
além da manhã que já se aproxima
e quando julgares que chegaste, sabe procurar novos caminhos.
Boa viagem aos guerreiros
que são fiéis ao seu povo.
Que o deus dos ventos seja favorável
ao velame dos seus navios.
Apesar do seu velho combate
que achem o prazer dos corpos mais amantes.
Encham as redes de estrelas cobiçadas,
cheios de venturas, cheios de conhecimentos.
Boa viagem aos guerreiros
se forem fiéis ao seu povo.
Apesar do seu velho combate,
que o amor encha os seus corpos generosos
que encontrem o caminho dos velhos desejos,
cheios de venturas, cheios de conhecimentos.»
(Desde 1976 que o poema ÍTACA de C. Cavafy, na tradução livre de João Medina, me acompanha e me ajuda a conduzir a nau, por isso, decidi transcrevê-lo.)
«Quando empreenderes a viagem para Ítaca
pede que o caminho seja longo,
cheio de aventuras, cheio de descobertas.
Pede que o caminho seja longo,
e numerosas as manhãs
em que os teus olhos descubram um porto ignorado
e numerosas as cidades onde buscarás o saber.
Conserva sempre no coração a ideia de Ítaca.
Deves alcançá-la, é o teu destino
mas não forces a travessia.
Mais vale que ela dure muito tempo
e que sejas velho quando deitares a âncora,
enriquecido com tudo o que tiveres encontrado no caminho
sem estares à espera de mais riqueza ainda.
Ítaca deu-te uma bela viagem
sem ela não terias partido.
E se a achares pobre, não é que Ítaca te enganou.
A sabedoria que adquiriste
permite-te compreender o sentido das Ítacas.
Mais além, deves ir mais além
das árvores que te prendem
e quando as tiveres ultrapassado
Trata de não parar.
Mais além, deves ir mais além
além do presente que te prende ainda
e quando estiveres solto
retoma de novo a viagem.
Mais além, sempre mais além,
além da manhã que já se aproxima
e quando julgares que chegaste, sabe procurar novos caminhos.
Boa viagem aos guerreiros
que são fiéis ao seu povo.
Que o deus dos ventos seja favorável
ao velame dos seus navios.
Apesar do seu velho combate
que achem o prazer dos corpos mais amantes.
Encham as redes de estrelas cobiçadas,
cheios de venturas, cheios de conhecimentos.
Boa viagem aos guerreiros
se forem fiéis ao seu povo.
Apesar do seu velho combate,
que o amor encha os seus corpos generosos
que encontrem o caminho dos velhos desejos,
cheios de venturas, cheios de conhecimentos.»
(Desde 1976 que o poema ÍTACA de C. Cavafy, na tradução livre de João Medina, me acompanha e me ajuda a conduzir a nau, por isso, decidi transcrevê-lo.)
O TEMPO
Falando de odisseias a pensar na viagem aventurosa de Odisseu, mas a pensar sobretudo na vida dos humanos (não como viagem de eterno retorno, mas como viagem com destino marcado, ainda que à espera de uma surpresa ), deparamo-nos sempre com a viagem no tempo e no espaço.
Ainda sobre o tempo, ouçamos Baudelaire: «Oui! le Temps règne; il a repris sa brutale dictature. Et il me pousse, comme si j'étais un boeuf, avec son double aiguillon. - "Et hue donc! bourrique! Sue donc, esclave! Vis donc, damné!"» (Baudelaire, Le Spleen de Paris).
Que tempo é este que nos encabresta
Ou que faz de nós uma festa
(Faz e desfaz / A bel-prazer / O que lhe apraz / olhem o género / só podia ser/ rapaz)
Ainda sobre o tempo, ouçamos Baudelaire: «Oui! le Temps règne; il a repris sa brutale dictature. Et il me pousse, comme si j'étais un boeuf, avec son double aiguillon. - "Et hue donc! bourrique! Sue donc, esclave! Vis donc, damné!"» (Baudelaire, Le Spleen de Paris).
Que tempo é este que nos encabresta
Ou que faz de nós uma festa
(Faz e desfaz / A bel-prazer / O que lhe apraz / olhem o género / só podia ser/ rapaz)
terça-feira, 13 de abril de 2010
O INSTANTE
Heraclito: «Não é possível descer duas vezes no mesmo rio nem tocar duas vezes numa substância mortal no mesmo estado; pela velocidade do movimento, tudo se dissipa e se recompõe de novo, tudo vem e vai».
Frederico Nietzsche, Assim Falava Zaratustra: «Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. [...] Estes caminhos opõem-se; chocam de frente e é aqui, sob esta poterna, que se encontram. O nome da poterna está inscrito no frontão, e esse nome é: Instante.»
Sophia de Mello Breyner Andresen - «A Viagem»:
«[...] E, dentro do carro que os levava, a mulher disse ao homem:
- É o meio da vida.
Através dos vidros, as coisas fugiam para trás. As casas, as pontes, as serras, as aldeias, as árvores e os rios fugiam e pareciam devorados sucessivamente. Era como se a própria estrada os engolisse.»
«O instante toca-nos (ou somo-lo) a um tempo com uma leveza de sonho e um excesso que nos desfaz. […] Sá-Carneiro diria gloriosamente dele que é aquela manhã tão forte que nos anoitece. […] O essencial Instante é circunscrito pela vertigem e pela claridade. E ao mesmo tempo reduzido a um ponto só» (LOURENÇO, Eduardo, 1974 – Tempo e Poesia, Porto, Editora Inova, pp39-46).
«— E como erguer o instante, volvê-lo perdurável?
De mil formas, como de mil formas o artista de génio executa a sua arte» (Mário de Sá-Carneiro - O Fixador de Instantes).
INSTANTE
A cena é muda e breve:
Num lameiro,
Um cordeiro
A pastar ao de leve;
Embevecida,
A mãe ovelha deixa de remoer;
E a vida
Pára também, a ver.
Miguel Torga (30 de Setembro de 1941)
domingo, 11 de abril de 2010
Odisseias
2. O Ser Humano vulgo o HOMEM – a resposta
A primeira palavra do poema grego Odisseia (doze mil versos em vinte e quatro cantos) é Homem - “o homem astuto que muito sofreu”.
Aqui está a apresentação do protagonista e a resposta para todas as questões enigmáticas da esfinge grega (metáfora absoluta do ser interrogante): o Homem.
E Eduardo Lourenço explica que «a Esfinge é incarnação perfeita da ambiguidade radical da situação humana» e é «ao mesmo tempo a realização plástica mais concreta do acto original do homem: a poesia». E sintetiza: «a esfinge é o homem e a resposta ao seu enigma uma resposta humana».
Se a resposta poética ao enigma da esfinge grega é o Homem, essa deveria ser a resposta a todos os enigmas. Descoberta a resposta ao enigma, seria preciso continuar a busca de «uma autêntica face do homem, uma existência em busca de uma essência». E a busca faz-se em todas as direcções, dentro e fora do homem. Mas é no homem que estão as respostas, porque é ele quem faz as perguntas e quem procura as respostas. O homem cria a esfinge, faz a pergunta esfíngica, cria Édipo para dar a resposta e cria a tragédia de mais um “homem astuto que muito sofreu”, continuando a criação. E «criar é ser poeta».
(Citações entre aspas rectas de LOURENÇO, Eduardo, 1974 – Tempo e Poesia, Porto, Editora Inova, pp39-46.)
A primeira palavra do poema grego Odisseia (doze mil versos em vinte e quatro cantos) é Homem - “o homem astuto que muito sofreu”.
Aqui está a apresentação do protagonista e a resposta para todas as questões enigmáticas da esfinge grega (metáfora absoluta do ser interrogante): o Homem.
E Eduardo Lourenço explica que «a Esfinge é incarnação perfeita da ambiguidade radical da situação humana» e é «ao mesmo tempo a realização plástica mais concreta do acto original do homem: a poesia». E sintetiza: «a esfinge é o homem e a resposta ao seu enigma uma resposta humana».
Se a resposta poética ao enigma da esfinge grega é o Homem, essa deveria ser a resposta a todos os enigmas. Descoberta a resposta ao enigma, seria preciso continuar a busca de «uma autêntica face do homem, uma existência em busca de uma essência». E a busca faz-se em todas as direcções, dentro e fora do homem. Mas é no homem que estão as respostas, porque é ele quem faz as perguntas e quem procura as respostas. O homem cria a esfinge, faz a pergunta esfíngica, cria Édipo para dar a resposta e cria a tragédia de mais um “homem astuto que muito sofreu”, continuando a criação. E «criar é ser poeta».
(Citações entre aspas rectas de LOURENÇO, Eduardo, 1974 – Tempo e Poesia, Porto, Editora Inova, pp39-46.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)

