sábado, 14 de abril de 2012

estrela pequenina

tocadores, vinde tocar
marimbas, n’gomas, quissanges
vinde chamar nossa gente
p’rá beira do grande Mar!

sentai-vos, irmãos, escutai:
precisamos entender
as falas da Natureza,
dizendo da nossa dor,
chorando nossa tristeza.

ora escutai; meus irmãos:
aquele sol no poente,
vermelho como uma braza
não é sol somente. Não!
é coágulo de sangue
vertido por angolanos
que fizeram o Brasil!

ouvi o mar como chora,
ouvi o mar como reza…

olhai a noite que chega,
veludo negro tecido
de mil pedaços de pele
arrancados a chicote,
ai! Cortados a chicote,
do dorso da nossa gente,
no tempo da escravatura…

noite é luto
de que Deus cobre o mundo
com dó de nós…

disco de prata luzente
sobe ligeiro no espaço.
sabei que a Lua fulgente
contém lágrimas geladas
por pobres negros choradas…

pergunta-me a multidão,
sentada à beira do mar:
- agora dizei, irmão,
aquela pálida estrela
tão pequenina e humilde
que brilha no nosso céu
qual é o significado?

talvez seja finalmente
Deus a olhar para a nossa gente…


Maurício de Almeida Gomes (1920)
Luandense. Integra a Antologia dos novos poetas Angolanos, de 1950 e tem colaboração na “Cultura I”, “Cultura II” e “Mensagem”.

sábado, 24 de março de 2012

O Recreio de Mário de Sá-Carneiro

 Em carta datada de Paris, 16 de Novembro de 1912, a Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro escreve «com péssimo estado de espírito e num dia chuvoso, enervado, escuro como breu». A dada altura, explica a razão do seu sofrimento:
  • «Diante de mim, a estrada vai pouco a pouco estreitando-se, emaranhando-se, perdendo o arvoredo frondoso que a abrigava do  sol do vento. E eu cada vez mais me convenço de que não saberei resistir ao temporal desfeito - à vida , em suma, onde nunca terei lugar.
    Vê você, eu sofro porque sinto próxima a hora em que o recreio vai acabar, em que é forçoso entrar para as aulas. [...] Em suma não creio em mim, nem no meu curso, nem no meu futuro. [...]» (Cartas de Mário de Sá- Carneiro a Fernando Pessoa, edição Manuela Parreira da Silva, Assírio e Alvim, pp.15-16).
  • A temática do recreio é retomada por Sá-Carneiro em Outubro de 1915:
O Recreio

Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...

Mário de Sá-Carneiro

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia da poesia - 21 de Março

POESIA
em fuga
fugaz
leve  de tule
teia de aranha
na neblina
raio de sol
brilho multicolor
em fio de seda
envolve o iniciado
para sempre

pzed

domingo, 11 de março de 2012

«As Luzes de Leonor»

Maria Teresa Horta
«Um fresco sobre o Barroco»»; «Não se trata de um panegírico da época, mas de uma tiara de fragrâncias»»; «Leonor surge [...] descrita na sua visão atormentada entre os seus princípios monárquicos e os ideais e "atos extremos" da Revolução Francesa - período omisso no espólio e em que Maria Teresa Horta dá largas á imaginação convocando figuras que lutaram pela emancipação da mulher». «O romance, imaginoso arco-íris de rosáceas, cria uma poética dos cinco sentidos [...] e uma simbólica de cores».

 Extratos de «As Luzes de Leonor: Uma Poética do Belo», Ana Marques Gastão, in Colóquio de Letras 179, janeiro/abril 2012.