domingo, 23 de maio de 2010

«O homem de Porlock» - a interrupção literária

ACTUAL  FRAGMENTÁRIA
O século era vinte e um e ela lia o Actual com Cunhal na capa e as artes a seguir. Tudo lhe interessava e nada lhe interessava. Dependia da hora do dia. No saco plástico não faltava papel, que, depois, seguiria para a reciclagem mental e material. Uma revista só de culinária fez as delícias dos olhos cansados. Bem, essa ficaria na colecção seleccionada de cozinheira. Propunha receitas das carnes preferidas: aquelas que não deixam ficar mal a insegurança da eterna aprendiz. O prefixo in era o seu preferido. E tem tudo a ver com o texto imperfeito que produz infinitamente. Ele surge, ela começa a escrever e ele pára por si ou pela interrupção sagrada do homem de (Interrupção mental. Aparece prockorn. Mas isso é o nome do pão com muitos cereais mal moídos. Pesquisa no Google. Ela bem sabia que não era prockorn. O certo é que foi parar a um blogue que comentava as notícias sensacionalistas. A da professora que posara para a Playboy. E a do assassinato de mãe e filha por tresloucado marido/pai. Ali ao lado. Na cidade dela. A família. Sagrada. Não é confiável? Está com os pais e sossega-se. Pode? E era o tacão altíssimo dos sapatos à la mode que gerava a discussão: sim e não à proibição entre argumentos de saúde e de beleza. Mas quem paga a saúde? Sobre isso não escreveram. Bem, felizmente era só uma entrada)
O homem afinal era de Porlock. Pois. A interrupção literária. Kubla Khan e o poeta inglês que era (Vazio cerebral. Volta à pesquisa. Mais fácil agora. Na barra inferior. É só clicar)
E o poeta inglês chama-se Samuel Taylor Coleridge. Aparece o artigo em inglês de Maria Irene Ramalho. Ela até já comprara o livro dos poetas do Atlântico, onde Pessoa é o destaque. 
No Outono de 1797, Coleridge lia (Lia: giro, ela tinha tido uma aluna com esse nome) as aventuras de Marco Polo no reino de Kubla Khan quando adormeceu sob o efeito de um medicamento um pouco opiado e teve um sonho poemático acerca do palácio desse reino. Ao acordar, escreveu o sonho poema até ser interrompido pelo homem de Porlock e, embora tenha retomado o poema com mais uma vintena de versos, sempre  considerou o poema incompleto por interrupção, face ao poema do sonho. Impensável, ó Colerige, o valor hermenêutico desse acontecimento literário! Se não fosse a interrupção literária os poemas não teriam fim? O fim pode ser lido como interrupção?

Virtual à parte, ela sustenta na mão Poetas do Atlântico – Fernando Pessoa e o modernismo anglo-americano de Maria Irene Ramalho com prefácio de Harold Bloom (e ela admira-se provincianamente com um enorme ponto de exclamação cerebral que não regista). Nessa obra, há um artigo intitulado «Interrupção Poética: um Conceito Pessoano para a Lírica Moderna».
De facto, Fernando Pessoa escreveu O homem de Porlock. Nesse texto, o autor valoriza na arte o sonho e a interrupção externa ou interna e fatal («o "Homem de Porlock", o interruptor imprevisto») bem sentida por ele até ao outramento literário. E por causa desse visitante interruptor «o que de todos nós resta, artistas grandes ou pequenos, [...] são fragmentos do que não sabemos que seja, mas que seria, se houvesse sido, a mesma expressão da nossa alma» (PESSOA, Fernando, 2006: Prosa Publicada Em Vida, edição Richard Zenith, Lisboa, Assírio e Alvim, pp.116-118).

sábado, 22 de maio de 2010

HALLEY , NEWTON E O COMETA DA RÉPUBLICA

O centenário da República faz recordar o centenário da visita assustadora do cometa Halley, visto como o causador do fim do mundo com o veneno dos seus gases.
Em 18 de Maio de 1910, o cometa Halley assustara os portugueses e foi lido,  posteriormente, por muitos, como tendo trazido o fim da monarquia portuguesa e o início da República, a 5 de Outubro desse mesmo ano.
Edmund Halley  (1656-1742), astrónomo amador, observara o cometa em 1682, e, deveras intrigado, procurou a opinião de Isaac Newton acerca de que força  poderia controlar o movimento do cometa. Por sua vez, esse cientista insigne tinha estado a observar o cometa com o telescópio reflector por si inventado e pôde responder que «a força que se exerce sobre o cometa é inversamente proporcional ao quadrado da sua distância ao Sol» e que «a sua trajectória seguia a sua lei de gravitação que desenvolvera vinte anos antes» (KAKU, 2010: 43).
Halley, surpreendido com a monumental descoberta de Newton, ofereceu-se para custear a publicação da nova teoria. E foi assim que, em 1687, Newton pôde publicar «o seu épico trabalho» Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Com esta obra, os cientistas, desconhecedores das leis mais importantes do sistema solar, ficaram habilitados a prever o movimento dos corpos celestes.
Grande foi o impacto da obra de Newton na Europa, traduzido desta forma poética por Alexander Pope (1688-1744):

«A Natureza e as suas leis estavam ocultas na noite,
Deus disse: Faça-se Newton! E tudo foi luz.»
(apud KAKU, 2010: 43)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Kaku, Michio - MUNDOS PARALELOS

«Estão a aumentar as provas científicas que sustentam a existência do multiuniverso no qual universos inteiros estão continuamente a "brotar" de outros universos. Se tal for verdadeiro, será possível unificar duas das maiores mitologias religiosas, o Génesis e o Nirvana. A Criação ocorrerá continuamente na fábrica do Nirvana intemporal» (KAKU, 2010: 35).

terça-feira, 18 de maio de 2010

Economia rima com poesia

«Reciclagem em alta» do Caderno de Economia do semanário Expresso, de 15 de Maio, em ponto de cruz com o poema seleccionado de Adília Lopes::


Nicolau Santos voltou com a poesia
e com os cisnes
que perseguem a Fiama e  a economia
entre o cisne e o monstro
«Sem vivo nem morto»
é Sócrates quem «cumpre o seu calvário»
grego e português
queres que te conte outra vez
certo certo sem talvez
é um verão mais elegante
«os contribuintes vão emagrecer»
guerra ao monstro obeso e elefante
que ele não escape outra vez
mas olha a novidade
«a economia ganha com a biodiversidade»
o Papa em Fátima
o milagre aconteceu
«estrelas cadentes»
e «Portugal cresceu»


«(de ócio de cisne e de ócio de Fiama
se faz a literatura portuguesa
minha contemporânea)»

sábado, 15 de maio de 2010

MUNDOS PARALELOS - KAKU, Michio

 O SATÉLITE WMAP: «Um marco histórico»

sexta-feira, 14 de maio de 2010

MUNDOS PARALELOS - KAKU, Michio


«Representações do Universo bebé»

Num primeiro momento, Michio Kaku expõe as origens do Universo pelos mitos cosmogónicos, subdivididos em duas categorias contraditórias: aqueles que apresentam a criação a partir do nada e os que consideram o Universo eterno (sem princípio nem fim).

Depois dessa deliciosa exposição, Kaku apresenta a possível conciliação dos dois tipos de cosmogonias a partir do mundo da ciência. Afirma, então:

«O que está a emergir gradualmente dos dados é uma grande síntese destas duas mitologias opostas. Talvez, especulam os cientistas, a Criação ocorra repetidas vezes num oceano intemporal de Nirvana. Nesta nova representação, o nosso Universo pode comparar-se a uma bolha que flutua num "oceano" muito mais vasto, onde novas bolhas estão constantemente a formar-se. De acordo com esta teoria, os universos, como bolhas que se formam na água a ferver, estão em criação contínua flutuando numa arena muito mais vasta, o Nirvana do hiperespaço a onze dimensões».

O estudo desses mundos paralelos ocupam os cientistas (físicos e astrónomos), abrindo portas para especulações que incluem a possibilidade da futura fuga de um Universo para outro.

O motor dessas novas teorias é o fluxo de dados dos satélites espaciais, nomeadamente do satélite WMAP, lançado em 2001, que forneceu uma imagem pormenorizada do Universo primitivo, com uma precisão sem precedentes, quando este tinha apenas 380 000 anos de idade, revelando numa fotografia do céu a radiação de microondas criada pelo próprio big bang (fotografou-se o "eco da criação").


quinta-feira, 13 de maio de 2010

MUNDOS PARALELOS

Lendo KAKU, Michio (2010) - MUNDOS PARALELOS - UMA VIAGEM PELA CRIAÇÃO, DIMENSÕES SUPERIORES E FUTURO DO COSMOS, 2ª edição, Lisboa, Editorial Bizâncio.

No prefácio, o autor começa por definir cosmologia: «o estudo do Universo como um todo»
Situa a primeira revolução da cosmologia no século XVII com a introdução do telescópio com o qual Galileu, na esteira dos estudos de Copérnico e de Kepler, abriu, pela primeira vez, «o esplendor dos céus à investigação séria». O progresso desta primeira fase culminou no trabalho de Newton, formulador das leis que «governam o movimento dos corpos celestes».
Seria preciso chegar ao século XX para a segunda revolução, iniciada com a introdução dos grandes telescópios. Em 1920, Huble usou o telescópio do Monte Wilson «para derrubar dogmas seculares, que afirmavam que o Universo era estático e eterno», demonstrando que o Universo está em expansão, uma vez que as galáxias se estão a afastar da Terra a velocidades enormes. Os seus estudos vieram confirmar os resultados da teoria da relatividade geral de Einstein, «segundo os quais  a arquitectura do espaço-tempo, em vez de ser plana e linear, é dinâmica e curva, o que conduziu à primeira explicação plausível da origem do Universo: o Universo começou com uma explosão cataclísmica denominada big bang, que arremessou as estrelas e as galáxias no espaço». Dos estudos sobre o big bang emergiu um quadro com as  linhas mestras da evolução do Universo.
A terceira revolução está em curso com os instrumentos de alta tecnologia que permitem obter dados muito seguros «sobre a natureza do universo, incluindo a sua idade, a sua composição e talvez até a sua provável morte futura»,
Não deixando de fazer a retrospectiva da cosmologia, o livro trata dessa terceira revolução, admitindo a existência de novas provas de o nosso Universo ser um entre muitos.