- Estou a ler um texto teu de 2000, sobre a escola inclusiva.
- Ah! As escolas, como é o caso dessa em que eu trabalhava, não se importam de colocar essa parangona no seu projecto educativo, mas não querem dar passos decisivos para atingirem essa meta.
- Não admira. Uma escola inclusiva pressupõe uma sociedade inclusiva, nem que seja numa miragem utópica. E quem a quer?
- Acho que tens razão. Mas poderá um humanista não trabalhar para que ela se torne uma realidade?
- Depende do conceito de humanista. Quantos humanistas confessos defendem uma escola exclusiva, a dos melhores, a dos adaptados ao sistema, propondo a exclusão dos outros? E isso em nome do bem da maioria.
- Só que a maioria não é a totalidade... Qual o projecto educativo para os inadaptados do sistema escolar? Fazer turmas ou escolas-guetos de inadaptados?
- Isso parece-me péssimo. Juntar problemas não os resolve, complica-os.
- Penso que a escola inclusiva ainda pertence ao desejo de uma minoria de educadores.
- Permite-me que leia parte do último parágrafo do teu texto, para que se possa comentar a nove anos de distância: «A integração e a inclusão produzem-se em ambiente de inovação que é sempre um processo de tensão entre a vontade de mudar e o imobilismo. Ideais e hábitos lutam entre si».
- Claro que, nesse âmbito, existe uma luta, dentro de cada professor e fora dele.Penso que, nessa escola, aconteceu e continua a acontecer uma batalha campal, tal como previra. Porque muito está em causa, tal como Miguel Zalbaza escrevia em «Diversidade e Currículo escolar», nomeadamente a instituição.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Parabéns a Sophia de Mello Breyner
A Sophia de Mello Breyner Andresen (n.6 de Novembro de 1919, f. 2 de Julho de 2004), no primeiro lustro da sua morte, uma homenagem à vida:
Parabéns, ó imortal!
A tua poesia é puro cristal.
Entraste no cortejo de Homero,
A melhor companhia
De toda a Poesia.
E as vossas vozes
Atravessam os tempos
E ecoam
Em polifónica harmonia
(seniora)
Parabéns, ó imortal!
A tua poesia é puro cristal.
Entraste no cortejo de Homero,
A melhor companhia
De toda a Poesia.
E as vossas vozes
Atravessam os tempos
E ecoam
Em polifónica harmonia
(seniora)
Maria de Lourdes Pintassilgo
- Estamos em Julho. Quem celebramos?
- Estou a folhear o Jornal de Letras. Vejo aqui «Ciclo sobre Pintassilgo»...
- Adoro pássaros. E esse é o nome mais sonoro da passarada. Mas não sabia que também te interessavas?
- Até me interesso... assim... de um modo geral. Mas agora não me refiro a pássaros, mas a Maria de Lourdes Pintassilgo.
- Gosto do nome. Começa com a leveza de Maria, entra na profundeza grave de Lourdes, e canta e voa em Pintassilgo. Mas de quem estamos a falar?
- De uma cidadã portuguesa, engenheira e política, com esse nome, nascida em Janeiro de 1930 e falecida em 10 de Julho de 2004.
- Ah! Entendo. Estás a responder à minha primeira pergunta. Estava perdido. Bem... e o que celebramos concretamente?
- A sua cidadania e o modo como a exerceu.
- Preciso de saber mais.
- Vê só: foi a primeira mulher (e única até ao momento) a desempenhar o cargo de primeiro ministro em Portugal e a segunda da Europa.
- Uma pioneira nacional. E isso aconteceu, quando?
- No V Governo Constitucional, que tomou posse a 7 de Julho de 1979 e terminou a 3 de Janeiro de 1980.
- De muito curta duração...
- Em tempos de crise... imagina que a sua governação termina com a dissolução da Assembleia da República... As crises sucessivas da governação nacional, se exceptuarmos a curta época das vacas gordas...
- Mas não era sobre isso que estávamos a falar.
- Pois, para saberes mais sobre Pintassilgo, podes consultar o seu portal Fundação Cuidar O Futuro , nele poderás obter as informações necessárias.
- E no Jornal de Letras?
- Ah, sim, já me esquecia. Anuncia um ciclo de conferências de homenagem (de 25 de Junho a 10 de Julho), intitulado A Dimensão do Cuidar na Re-significação do Espaço Público, integrado no projecto Mulheres, Ética e Espaço Público.
- Estou a folhear o Jornal de Letras. Vejo aqui «Ciclo sobre Pintassilgo»...
- Adoro pássaros. E esse é o nome mais sonoro da passarada. Mas não sabia que também te interessavas?
- Até me interesso... assim... de um modo geral. Mas agora não me refiro a pássaros, mas a Maria de Lourdes Pintassilgo.
- Gosto do nome. Começa com a leveza de Maria, entra na profundeza grave de Lourdes, e canta e voa em Pintassilgo. Mas de quem estamos a falar?
- De uma cidadã portuguesa, engenheira e política, com esse nome, nascida em Janeiro de 1930 e falecida em 10 de Julho de 2004.
- Ah! Entendo. Estás a responder à minha primeira pergunta. Estava perdido. Bem... e o que celebramos concretamente?
- A sua cidadania e o modo como a exerceu.
- Preciso de saber mais.
- Vê só: foi a primeira mulher (e única até ao momento) a desempenhar o cargo de primeiro ministro em Portugal e a segunda da Europa.
- Uma pioneira nacional. E isso aconteceu, quando?
- No V Governo Constitucional, que tomou posse a 7 de Julho de 1979 e terminou a 3 de Janeiro de 1980.
- De muito curta duração...
- Em tempos de crise... imagina que a sua governação termina com a dissolução da Assembleia da República... As crises sucessivas da governação nacional, se exceptuarmos a curta época das vacas gordas...
- Mas não era sobre isso que estávamos a falar.
- Pois, para saberes mais sobre Pintassilgo, podes consultar o seu portal Fundação Cuidar O Futuro , nele poderás obter as informações necessárias.
- E no Jornal de Letras?
- Ah, sim, já me esquecia. Anuncia um ciclo de conferências de homenagem (de 25 de Junho a 10 de Julho), intitulado A Dimensão do Cuidar na Re-significação do Espaço Público, integrado no projecto Mulheres, Ética e Espaço Público.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Cara de manga apodrecida
O espelho social
É dia 23 de Junho. Há muito a preparar para o alegre arraial de S. João, a festa de Verão, onde se juntam as três gerações. No dia anterior, Leonor, avó sexagenária, tinha ido ao cabeleireiro, para, no meio de tantas ocupações, não ter de pensar em cabelo. Prepara-se cuidadosamente para sair e fazer as compras da última hora.Dirige-se a uma loja da fruta, que lhe fora indicada como a melhor nas redondezas. Vai escolhendo, quando encontra três mangas: caras, engelhadas, manchadas, quase podres. Pega na melhor das três e, dirigindo-se à vendedora, pergunta se não teria mangas melhores.
A isso, a vendedora, mulherão dos seus quarenta e pico, responde-lhe:
- Olhe, mangas, não trouxe, porque, sabe, elas estavam com uma cara... (e fez um trejeito de desagrado, enquanto olhava para a cara da compradora)... assim... como as nossas.
Leonor levanta os olhos da manga, mira-a atentamente pela primeira vez e responde:
- A sua está bem boa...
Ao que a vendedora nada acrescenta. E a compradora junta aquela manga à sua série de vegetais seleccionados.
Sai, vai tomar um café, dirige-se ao primeiro espelho e comenta com um sorriso irónico:
- De facto, espelho meu, cara de manga em começo de putrefacção absoluta... mas viva! E aos seres vivos o melhor que lhes pode acontecer é envelhecerem saudavelmente.
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Seniores no discurso comercial
sábado, 20 de junho de 2009
Rubaiyat no feminino
- Quando se fala em rubai, está a falar-se de poesia masculina?
- Sim, penso que sim. Não conheço Rubaiyat feminino.
- Mas uma voz feminina ficaria bem no coro polifónico.
- Desde que não destoasse...
- Em poesia, fica difícil saber, na hora, quem destoa.
- Tentemos a construção: «Bebamos licor dos deuses dourado,/ Servido d'alto por belo criado,/ Enquanto a conversa fútil flui,/ Com o mar ao fundo e céu nublado.»
- Sim, penso que sim. Não conheço Rubaiyat feminino.
- Mas uma voz feminina ficaria bem no coro polifónico.
- Desde que não destoasse...
- Em poesia, fica difícil saber, na hora, quem destoa.
- Tentemos a construção: «Bebamos licor dos deuses dourado,/ Servido d'alto por belo criado,/ Enquanto a conversa fútil flui,/ Com o mar ao fundo e céu nublado.»
Omar Khayyan, autor de RUBAIYAT

- Quem é Omar Khayyan?
- Um sábio persa, nascido no século XI(1044?), famoso na sua época, no domínio da matemática, da astronomia, da filosofia. Também foi poeta.
- Que se sabe dele, como homem de ciência?
- No que respeita à álgebra, classificou as equações algébricas; no que respeita á geometria, desenvolveu a teoria das linhas paralelas. Quanto à astronomia, construiu um calendário solar muito rigoroso.
- E na literatura?
- Passa a ser conhecido, no ocidente, quando, no século XIX, Edward Fitzgerald traduz Rubaiyat para inglês.
- Foi essa obra que Pessoa conheceu, estudou, tentou traduzir...
- E que o inspirou para criar o seu Rubaiyat. O tal diálogo intertextual que atravessa os séculos, como uma voz polifónica.
- Giro! Ergue-se uma voz e a ela juntam-se outras, através dos séculos...
- Penso que Pessoa era muito sensível a esse processo de trabalho poético. E vai deixando pistas na sua obra, para que encontremos essa polifonia.
- Já agora, cite-se um rubai que tenha sido feito por Khayyan, traduzido para o inglês por Fitzgerald e , para o português, por Pessoa.
- Escolho este:
«Já muita vez jurei de me emendar, / Mas não staria eu bebado a jurar?/ Mas vinha a primavera, vinham rosas,/ E emenda e jura se esvahiam no ar.»
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Rubaiyat
- Que título estranho o desse livro de Fernando Pessoa!
- De facto, Rubaiyat é um nome árabe. Há quem traduza por "canções de beber". A edição crítica optou pelo título árabe da obra do persa inspirador e autor do século XI-XII: Omar Khayyan.
- Como terá chegado até Pessoa?
- Certamente, através da tradução de Edward Fitzgerald, Rubaiyat of Omar Khayyam.
- Existe essa obra na biblioteca de Pessoa?
- Sim, e toda preenchida, nos espaços em branco, por ele. Tudo isso está a ser digitalizado, para que possamos aceder aos seus livros, sem sair de casa.
- Que escreveu ele no livro?
- Ele traduziu do inglês alguns rubai (quadra decassilábica, com o esquema rimático aaba) ou parte deles e criou outros. Tudo isso aparece nesta edição que estou a ler.
- Afinal que significa Rubaiyat?
- Um conjunto de rubai, acerca do vinho, como sedativo e ilusão perante a ilusão/desilusão do mundo e da vida, de um sábio marginal e solitário.
- Um encontro de sábios, através dos tempos, bebendo um copo, enquanto dialogam.
- A intertextualidade permite que isso aconteça, num diálogo infinito através de obras. E Pessoa cultiva-a, em diálogo de textos.
- De facto, Rubaiyat é um nome árabe. Há quem traduza por "canções de beber". A edição crítica optou pelo título árabe da obra do persa inspirador e autor do século XI-XII: Omar Khayyan.
- Como terá chegado até Pessoa?
- Certamente, através da tradução de Edward Fitzgerald, Rubaiyat of Omar Khayyam.
- Existe essa obra na biblioteca de Pessoa?
- Sim, e toda preenchida, nos espaços em branco, por ele. Tudo isso está a ser digitalizado, para que possamos aceder aos seus livros, sem sair de casa.
- Que escreveu ele no livro?
- Ele traduziu do inglês alguns rubai (quadra decassilábica, com o esquema rimático aaba) ou parte deles e criou outros. Tudo isso aparece nesta edição que estou a ler.
- Afinal que significa Rubaiyat?
- Um conjunto de rubai, acerca do vinho, como sedativo e ilusão perante a ilusão/desilusão do mundo e da vida, de um sábio marginal e solitário.
- Um encontro de sábios, através dos tempos, bebendo um copo, enquanto dialogam.
- A intertextualidade permite que isso aconteça, num diálogo infinito através de obras. E Pessoa cultiva-a, em diálogo de textos.
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