segunda-feira, 28 de março de 2016

Fernando Pessoa: Identidades - Tema: Quem sou eu? Diálogo entre poemas do ortónimo e dos outros eus.





  • Fernando Pessoa, em 24-8-1930:


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).



  •  Bernardo Soares:


«[…]
Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?»

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.  - 21."Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.




Bernardo Soares - Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa.

Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado.

Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.
[…]
E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda

  •  Alberto Caeiro, em 5-6-1922 - Dizes-me: tu és mais alguma coisa



Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,
Digo da planta, «é uma planta»,
Digo de mim «sou eu».
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

 “Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). 1ª publ. in “Poemas Inconjuntos”. In Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.



·       Álvaro de Campos, em 15-1-1928:

TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

[…]
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
[…]
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 252. 1ª publ. in Presença, nº 39. Coimbra: Jul. 1933.


  • Ricardo Reis –


Cada um é um mundo; e como em cada fonte

Cada um é um mundo; e como em cada fonte
Uma deidade vela, em cada homem
        Porque não há de haver
        Um deus só de ele homem?
Na encoberta sucessão das cousas,
Só o sábio sente, que não foi mais nada
        Que a vida que deixou.
s.d.
Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte

Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
        Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
        O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
        E o que outro tiveres?
22-9-1931
Vivem em nós inúmeros; 

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.

13-11-1935


Textos consultados em   Arquivo Pessoa
Obra Aberta
OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO




«poço sem muros»



poço sem muros
nem alçapão
voltejam vendados
Em queda livre
divertida mente
dramática mente
no faz de conta
no tanto faz
em choro ou riso
assim-assim
o poço está lá
quer vejas quer não
na feira popular
na festa e na romaria
do dia-a-dia

a descida lenta e espiralada
a queda rápida e eficaz
sem estrelas nem azul
sem bilhete nem passaporte
democrática mente

28 de março 2016
poesia zed

quarta-feira, 23 de março de 2016

QUARESMA



Sempre na primavera
Um Cristo prometaico eternamente crucificado
Grita contra o pai que anualmente
Exige o sacrifício da subida ao Gólgota

Em vias-sacras repetidas à exaustão
Sob o olhar da criança que chora
No tempo prometido de flores
Cristo caminha lentamente para a morte
Durante quarenta dias e quarenta noites
Pelos séculos sem fim

A criança chora ciclicamente
Até ao desespero do desamparo
Na subida íngreme
Ninguém acode a tanta dor
Nem deus a nosso senhor

Março de 2016
Poesia zed

sábado, 12 de março de 2016

Que género?



Invoco-te na madrugada sob a estrela matutina
E Prometeu continua acorrentado ao seu destino
Poder e Violência cumpriram a missão de Zeus
A Águia devora o fígado a renascer

A aurora rósea clareia e os filhos de Prometeu em fuga
Naufragam no mar tranquilo sob o olhar dos deuses silenciosos

Vida e morte do povo não são temas da astronomia
De manhã desabrocham as rosas em vias de fenecer
Caem as pétalas e
rotação e translação planetária
Um continuum
Brilha o Sol
Ó divino Fulgor
Io acena
Boa viagem


Poesia zed

Tabucchi e Pessoa



António Tabucchi - Os Últimos três dias de Fernando Pessoa – um delírio
1ª edição , Éditions Seuil, 1994
2ª edição, Quetzal, 1995

O protagonista é Fernando Pessoa em plena crise hepática, entre 28 e 30 de Novembro de 1935.
Num primeiro momento, «28 de Novembro de 1935 - A minha vida foi mais forte do que eu», Pessoa, muito consciente, prepara a sua ida para o hospital. As primeiras personagens são reais: o senhor Manacés[1] – o seu barbeiro -, a porteira, os seus amigos – Francisco Gouveia e Armando Teixeira Rebelo – e o seu patrão – Moitinho de Almeida. Os três últimos acompanham-no no táxi rumo ao hospital S. Luis dos Franceses[2].
Segue-se «A hora dos fantasmas», meia-noite. O primeiro fantasma é Álvaro de Campos, a quem Pessoa absolve por Álvaro declarar ter amado, pois só o amor o torna humano.
Depois chega Caeiro com uma revelação: «Sou o seu pai». E Pessoa esclarece: «Fui eu que o elegi como pai e Mestre».

No segundo dia, «29 de Novembro de 1935 - A alguns quilómetros de Lisboa», as visitas fantasmagóricas continuam e é a vez do heterónimo Ricardo Reis, que afinal não fora para o Brasil e ficara em Azeitão. Segue-se a visita do semi-heterónimo Bernardo Soares[3] com a receita da «lagosta suada à moda de Peniche» e o seu deslumbramento com Cascais e com o convite de D. Pedro.

No terceiro dia, «30 de Novembro de 1935 - Também eu esqueci a morte», é a vez da visita de António Mora, retratado à semelhança da figura do Dr. Gama Nobre com quem se unifica, internado na Casa de Saúde de Cascais, de acordo com o texto nº 229 da obra Pessoa por Conhecer II de Teresa Rita Lopes, dentro do ponto «2.9. A militância neopagã de A. Mora». Contudo, o «velho de aspeto nobre» não recitava o lamento de Prometeu, mas os primeiros versos traduzidos de «Dead by Water» de T. S. Eliot[4] (1888-1965) - «Flebas o fenício morto há quinze dias, esqueceu o grito das gaivotas e as vagas profundas do mar» - e acrescenta: «para me anunciar a sua sorte, ó grande Fernando». A «sorte» engloba a morte e a ressurreição pela poesia e pela força da natureza cíclica. Todavia, Pessoa revela-se, num primeiro momento, mais preocupado com a obra do visitante, O Regresso dos Deuses. Mora responde que ninguém publicará a obra de um louco, sobretudo depois da morte de Pessoa. Este sossega-o com o baú dos papéis onde tudo está guardado e com o crítico que os virá a trabalhar - «um homem cheio de sensibilidade e de cultura que se chama Coelho». Com estas palavras o autor homenageia o pessoano por excelência, Jacinto do Prado Coelho.
A obra termina com António Mora a assistir à morte de Pessoa, recitando parte da lamentação de Prometeu de Ésquilo (tal como surge no texto 229, acima referido):

«Ó céu divino, velozes ventos alados, nascentes dos rios, sorriso inumerável das ondas marinhas, terra, mãe universal, a vós invoco, e ao globo do sol que tudo vê, vede a que estou sujeito».

«Eram exactamente vinte horas e trinta» do dia 30 de Novembro de 1935.

Esta obra  pode ser lida como uma obra dramática em três atos, os três dias da crise fatal, trazendo à boca de cena Fernando Pessoa em diálogo com as suas criações fictícias mais relevantes, por isso, ela tem sido representada por várias companhias de Teatro.


[1] « Manassés, segundo António [seu filho], era mais do que barbeiro do Senhor Pessoa, era também seu amigo e confidente.» , in “O barbeiro de Fernando Pessoa” de Jorge Adelar Finatto  - http://ofazedordeauroras.blogspot.pt/2010/04/o-barbeiro-de-fernando-pessoa.html.

[2] Sónia Louro, na sua obra Fernando Pessoa – romance (2014), retoma estas personagens para a construção do mesmo momento da vida de Pessoa.
[3] Bernardo Soares, Devaneio entre Cascais e Lisboa. L. do D «Devaneio entre Cascais e Lisboa».
[4] T. S. Eliot (1888-1965), prémio Nobel em 1948.