quarta-feira, 23 de março de 2016

QUARESMA



Sempre na primavera
Um Cristo prometaico eternamente crucificado
Grita contra o pai que anualmente
Exige o sacrifício da subida ao Gólgota

Em vias-sacras repetidas à exaustão
Sob o olhar da criança que chora
No tempo prometido de flores
Cristo caminha lentamente para a morte
Durante quarenta dias e quarenta noites
Pelos séculos sem fim

A criança chora ciclicamente
Até ao desespero do desamparo
Na subida íngreme
Ninguém acode a tanta dor
Nem deus a nosso senhor

Março de 2016
Poesia zed

sábado, 12 de março de 2016

Que género?



Invoco-te na madrugada sob a estrela matutina
E Prometeu continua acorrentado ao seu destino
Poder e Violência cumpriram a missão de Zeus
A Águia devora o fígado a renascer

A aurora rósea clareia e os filhos de Prometeu em fuga
Naufragam no mar tranquilo sob o olhar dos deuses silenciosos

Vida e morte do povo não são temas da astronomia
De manhã desabrocham as rosas em vias de fenecer
Caem as pétalas e
rotação e translação planetária
Um continuum
Brilha o Sol
Ó divino Fulgor
Io acena
Boa viagem


Poesia zed

Tabucchi e Pessoa



António Tabucchi - Os Últimos três dias de Fernando Pessoa – um delírio
1ª edição , Éditions Seuil, 1994
2ª edição, Quetzal, 1995

O protagonista é Fernando Pessoa em plena crise hepática, entre 28 e 30 de Novembro de 1935.
Num primeiro momento, «28 de Novembro de 1935 - A minha vida foi mais forte do que eu», Pessoa, muito consciente, prepara a sua ida para o hospital. As primeiras personagens são reais: o senhor Manacés[1] – o seu barbeiro -, a porteira, os seus amigos – Francisco Gouveia e Armando Teixeira Rebelo – e o seu patrão – Moitinho de Almeida. Os três últimos acompanham-no no táxi rumo ao hospital S. Luis dos Franceses[2].
Segue-se «A hora dos fantasmas», meia-noite. O primeiro fantasma é Álvaro de Campos, a quem Pessoa absolve por Álvaro declarar ter amado, pois só o amor o torna humano.
Depois chega Caeiro com uma revelação: «Sou o seu pai». E Pessoa esclarece: «Fui eu que o elegi como pai e Mestre».

No segundo dia, «29 de Novembro de 1935 - A alguns quilómetros de Lisboa», as visitas fantasmagóricas continuam e é a vez do heterónimo Ricardo Reis, que afinal não fora para o Brasil e ficara em Azeitão. Segue-se a visita do semi-heterónimo Bernardo Soares[3] com a receita da «lagosta suada à moda de Peniche» e o seu deslumbramento com Cascais e com o convite de D. Pedro.

No terceiro dia, «30 de Novembro de 1935 - Também eu esqueci a morte», é a vez da visita de António Mora, retratado à semelhança da figura do Dr. Gama Nobre com quem se unifica, internado na Casa de Saúde de Cascais, de acordo com o texto nº 229 da obra Pessoa por Conhecer II de Teresa Rita Lopes, dentro do ponto «2.9. A militância neopagã de A. Mora». Contudo, o «velho de aspeto nobre» não recitava o lamento de Prometeu, mas os primeiros versos traduzidos de «Dead by Water» de T. S. Eliot[4] (1888-1965) - «Flebas o fenício morto há quinze dias, esqueceu o grito das gaivotas e as vagas profundas do mar» - e acrescenta: «para me anunciar a sua sorte, ó grande Fernando». A «sorte» engloba a morte e a ressurreição pela poesia e pela força da natureza cíclica. Todavia, Pessoa revela-se, num primeiro momento, mais preocupado com a obra do visitante, O Regresso dos Deuses. Mora responde que ninguém publicará a obra de um louco, sobretudo depois da morte de Pessoa. Este sossega-o com o baú dos papéis onde tudo está guardado e com o crítico que os virá a trabalhar - «um homem cheio de sensibilidade e de cultura que se chama Coelho». Com estas palavras o autor homenageia o pessoano por excelência, Jacinto do Prado Coelho.
A obra termina com António Mora a assistir à morte de Pessoa, recitando parte da lamentação de Prometeu de Ésquilo (tal como surge no texto 229, acima referido):

«Ó céu divino, velozes ventos alados, nascentes dos rios, sorriso inumerável das ondas marinhas, terra, mãe universal, a vós invoco, e ao globo do sol que tudo vê, vede a que estou sujeito».

«Eram exactamente vinte horas e trinta» do dia 30 de Novembro de 1935.

Esta obra  pode ser lida como uma obra dramática em três atos, os três dias da crise fatal, trazendo à boca de cena Fernando Pessoa em diálogo com as suas criações fictícias mais relevantes, por isso, ela tem sido representada por várias companhias de Teatro.


[1] « Manassés, segundo António [seu filho], era mais do que barbeiro do Senhor Pessoa, era também seu amigo e confidente.» , in “O barbeiro de Fernando Pessoa” de Jorge Adelar Finatto  - http://ofazedordeauroras.blogspot.pt/2010/04/o-barbeiro-de-fernando-pessoa.html.

[2] Sónia Louro, na sua obra Fernando Pessoa – romance (2014), retoma estas personagens para a construção do mesmo momento da vida de Pessoa.
[3] Bernardo Soares, Devaneio entre Cascais e Lisboa. L. do D «Devaneio entre Cascais e Lisboa».
[4] T. S. Eliot (1888-1965), prémio Nobel em 1948.

quinta-feira, 10 de março de 2016

«A poesia tem género?»

«Género é um constructo abstrato, um princípio de classificação, que emerge da observação do real, isto é, da natureza: diferenciação sexual do reino animal e do vegetal»[1]. Para o que fica fora disso, havia o neutro. Por isso, a palavra “poesia”, que vem do grego poiésis com o significado de «fabricação, ação», era do género neutro.
É evidente que poeta era e é uma palavra do género masculino como se pode verificar nas palavras de Vítor Aguiar e Silva: «De acordo com a origem grega da palavra, Poeta é aquele que faz, aquele que cria. […] Desde o aedo da Grécia primitiva ao bardo dos celtas e ao trovador medieval, o poeta aparece-nos ligado às artes da música e do canto» (Enciclopédia Verbo). 
Na história da Literatura, durante séculos a poesia publicada – ouvida ou escrita para o público – foi fabricada pelo género masculino, salvo raras exceções. 
Depois houve o século XX e Simone de Beauvoir na conquista do espaço público da escrita da mulher e o feminismo aconteceu como uma explosão feminina da repressão secular. E, assim, hoje, pode perguntar-se se «a poesia tem Género». Esta pergunta veicula uma conquista feminina da contemporaneidade.
Hoje, temos os poetas e as poetisas e com Sophia de Mello temos o poeta e a poeta. Homens e mulheres poetam. Dessa arte, saem os poemas. E, então, a pergunta faz-se ao produto poemático.
Os poemas têm género?
Em princípio, o género do poema será não o do autor/autora, mas o do «eu poético» construído no poema. Porém, cada poema é uma peça de arte com estilo próprio e esse estilo pode conter a marca do género do autor/autora.
Independentemente da questão do género, o valor do poema está na qualidade poética.


[1]  HEILBORN, Maria Luiza. “Usos e Abusos da Categoria de Gênero” In: HOLLANDA, Heloísa Buarque (org.) Y Nosotras latinoamericanas? estudos sobre Gênero e raça”. São Paulo, Fundação Memorial da América Latina, 1992, p. 4. http://www.clam.org.br/bibliotecadigital/uploads/publicacoes/114_1042_usoseabusosdacategoriadegenero.pdf.pdf


quinta-feira, 3 de março de 2016

TABACARIA



TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


15-1-1928
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
 - 252. 1ª publ. in Presença, nº 39. Coimbra: Jul. 1933.
Fonte:
Arquivo Pessoa

Obra Aberta
OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
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Álvaro de Campos