sábado, 7 de novembro de 2015

Fernando Pessoa - um escritor em diálogo



Com quem dialoga Fernando Pessoa?
Os textos pessoanos dialogam com textos autorais.
O dialogismo dos seus textos mereceu a atenção de Dionísio Vila Maior em Fernando Pessoa: Heteronímia e Dialogismo[1]. Tendo por base a obra de  Mikhaïl Bakhtine, Vila Maior salienta a reflexão do escritor russo «sobre as potencialidades dialógicas, polifónicas e alteronímicas da linguagem, do romance e da criação artística» e aplica a teoria de Bakhtine aos escritos de Pessoa.
Refletindo e estudando tais conceitos, desenvolvi parte da minha tese de mestrado, Fernando Pessoa e «A Nova Poesia Portuguesa»: da teoria à concretização poética em Pauis[2], tentando provar o dialogismo abrangente dos referidos textos com obras literárias de valor universal, mas também com textos nacionais, alimentando polémicas incentivadoras do desenvolvimento cultural. Dos textos em prosa sobre a nova poesia portuguesa,  salienta-se o diálogo com os textos de autores do movimento Renascença Portuguesa, nomeadamente com os de Teixeira de Pascoais, mas também com textos de escritores fora do referido movimento como Adolfo Coelho e Hernâni Cidade. O poema Pauis, para além dos referidos textos, dialoga com as cartas de Mário de Sá Carneiro e, indiretamente, com Santa Rita Pintor de quem as cartas falam.
Tudo isto vem a propósito da leitura em curso de Presença da «presença» de David Mourão-Ferreira[3], na parte respeitante aos escritores do Orpheu, identificados com o escritor urbano lisboeta, e os escritores do movimento Presença, identificados com o escritor de província. Refere então Mourão Ferreira que «o lugar» tem fundamental importância na criação da obra literária e cita um artigo do heterónimo pessoano Álvaro de Campo na revista Presença, nº 5, “como que a propósito”:

Os cavalos da cavalaria é que formam a cavalaria, sem as montadas, os cavaleiros seriam peões. O lugar é que faz a localidade. Estar é ser.[4]

Sem contexto dialógico, o valor textual da citação é abrangente e ambíguo, próprio do valor poético da conotação; dentro do contexto dialógico, o valor significativo fica ampliado pela ironia do diálogo entre o Orpheu e a Presença. A polifonia de vozes (um eu heteronímico - Álvaro de Campos -, um tu presencista, acrescido da mão de Pessoa que escreve) abre possibilidades interpretativas acrescidas, dando uma maior eficácia à leitura.
Desenvolvendo a frase pessoana «Estar é ser», David Mourão-Ferreira separa os três movimentos pelo «estar». Assim, a Renascença Portuguesa com o fulcro no Porto impusera-se “por uma rusticidade tradicionalista, filosoficamente enevoada”; o Orpheu, “por um imperial e megalómano sentido urbanístico, sonhado em Lisboa; e a presença, enfim, iria impor-se por um plácido provincianismo descritivo, porém com asas de europeia inquietação, - colocadas em Coimbra”.
Novembro, 2015.
Maria José Domingues




[1] Vila Maior, Dionísio, Fernando Pessoa: Heteronímia e Dialogismo – o contributo de Mikhaïl Bakhtine, Livraria Almedina, Coimbra, 1994.
[2] http://www.lusosofia.net/textos/20130604-domingues_maria_jose_fernando_pessoa_e_a_nova_poesia_portuguesa.pdf
[3] Mourão Ferreira, Presença da «presença», 1ª edição, Brasília Editora, 1977, pp.27-28.
[4] Campos, Álvaro de, «Ambiente», in Revista presença, nº 5, 4-11-1927.

sábado, 10 de outubro de 2015

Dialogismo em Aparição - Vergílio Ferreira e Fernando Pessoa




Em A Angústia da Influência, Harold Bloom escreve que «os poetas fortes fazem a história lendo-se mal uns aos outros, de modo a desobstruir um espaço de imaginação para si próprios» [1].

Estamos a dissertar sobre dois escritores portugueses de grande talento. Sabe-se que Vergílio Ferreira combateu Fernando Pessoa, aliando-se às opiniões de certos neorrealistas e críticos literários do mesmo pendor. Disso nos dá conta em Conta-Corrente, 2 (pp.25-26).
Eduardo Lourenço debruça-se sobre a questão e afirma que Vergílio Ferreira combateu Pessoa como a um «fraterno inimigo», embora com «virulência imprópria, chocante mesmo», todavia, para além disso, acontece o «encontro», que «não se situa na mesma linha, nem ocupa o mesmo lugar nos respetivos itinerários espirituais». E explica: «o que em Pessoa é visão nuclear, olhar inverso consumidor de substância de tudo aparece em Vergílio Ferreira como passagem, tentação vencida ou suspensa, reposição da experiência humana numa Luz que sem ignorar a Noite a deseja transfigurar». E conclui: «A obra de Arte é justamente o exato lugar da noite humana transfigurada»[2]. No fabrico da obra de Arte se encontram os dois desassossegados autores em tempo diferente.

Tudo isto vem a propósito da releitura de Aparição e do diálogo que se trava entre o eu do     narrador-escritor e, talvez, Fernando Pessoa. Partindo dessa hipótese, vejamos então de que modo Vergílio Ferreira em Aparição desobstrui o espaço para a sua imaginação desassossegada, no espaço ocupado pelo desassossegado Pessoa:

«Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra. Nada mais há na vida do que o sentir original, aí onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, aonde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras. Eu te odeio, meu irmão das palavras que já sabes um vocábulo para este alarme de vísceras e dormes depois tranquilo e me apontas a cartilha onde tudo já vinha escrito… E eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e fugaz e invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos e nos escorre de suor quando se ergue à nossa face» [3].

Julgo que terá surgido Fernando Pessoa e Álvaro de Campos no pensamento de Vergílio Ferreira quando escreveu «nada mais há na vida do que o sentir», uma vez que «sentir tudo de todas as maneiras» é o primeiro verso de A Passagem das Horas e existe o poema: «Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. / Sentir tudo de todas as maneiras. / Sentir tudo excessivamente, / Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas /E toda a realidade é um excesso, uma violência,/Uma alucinação extraordinariamente nítida /Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,/O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas/Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.// […]». 
Também a palavra «pedra» fora trabalhada por Pessoa em «A Nova Poesia Portuguesa» com o seu valor como significante e significado de valor denotativo e conotativo. E, no último verso do poema Pauis, o ferro com a sua dureza obstaculizante restringe o horizonte poético: «Portões vistos longe, através das árvores, tão de ferro!...». E ainda as palavras guardadas na algibeira também podem ser lidas como apontando para Pessoa: o poeta guardador de papéis, primeiro, no bolso e, depois, na arca. 
A tudo isso, acresce ter Pessoa escrito O Livro do Desassossego, podendo «desassossego» ser a palavra oculta pela expressão: «vocábulo para este alarme de vísceras».

A ser assim, julgo que o «irmão das palavras», a quem Vergílio diz odiar, seria Fernando Pessoa, falecido em 1935, logo, a dormir  «tranquilo» e a apontar « a cartilha onde tudo já vinha escrito…».

Este diálogo explícito, ao qual não falta vocativo, mas falta o nome explícito do evocado, parece um bom exemplo de dialogismo do autor mais novo com o autor mais velho, num confronto de obras, para conquistar o espaço de expressão do desassossego de um outro eu: «E eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e fugaz e invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos e nos escorre de suor quando se ergue à nossa face».
Outubro, Maria José Domingues




[1] Bloom, Harold, A Angústia da Influência, Edições Cotovia, 1991, p.17.
[2] Lourenço, Eduardo, «Vergílio Ferreira e a geração da Utopia», in Estudos sobre Vergílio Ferreira, Temas Portugueses, Helder Godinho, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982, pp.295-306.
[3] Ferreira, Vergílio, Aparição, Bertrand Editora, 1988, pp.9-10.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Carlos de Oliveira vs. Vergílio Ferreira – Uma Abelha na Chuva vs. Aparição




«Vida e morte o que são?» versus ‘Vida e morte o que são para mim?’

Os dois autores escrevem as obras referidas na década de cinquenta do século XX - Uma Abelha na Chuva é publicada em 1953 e Aparição em 1959[1]. Os dois autores, contemporâneos do neorrealismo e do presencismo, percorreram o caminho literário do neorrealismo, sendo que Vergílio Ferreira, após as primeiras obras neorrealistas, criou a corrente literária vergiliana do existencialismo, centrada no eu que se interroga sobre si mesmo e sobre o mundo. Esse eu parte da personagem narrador que, face a si mesmo e ao mundo, tem mais perguntas do que respostas.

Acontece que, em Uma Abelha na Chuva, Carlos de Oliveira toca o existencialismo heideggeriano, através da voz da consciência audível, sobretudo na personagem Álvaro Silvestre, e da questão posta pelo médico, que ecoa na interioridade de Silvestre: «Vida e morte o que são?». Para esta interrogação humana surgem na obra as respostas adequadas às personagens: para os católicos, Deus é a resposta; para o médico apicultor, a morte é o fim da vida, o que não invalida a recordação dessa vida que os humanos transportam; para o neorrealista, a morte pode ter um significado político, no caso, o do fomento da luta de classes. Apesar das respostas diversificadas, a questão continua em pé com a angústia criada pela ameaça mortal.

Ao reler Aparição, imediatamente a seguir a Uma Abelha na Chuva, tive a noção de que a obra vergiliana continuava a problemática vertida na mesma pergunta, acrescida de um «para mim», isto é: Vida e morte o que são para mim.
O romance desenrola-se na busca da resposta reveladora.
Temos um eu/narrador em contexto (o eu-aqui de Heidegger), em busca da «verdade perfeita» - essencial na filosofia heideggeriana - a verdade como revelação do ser, o que pressupõe que o homem se abre ao ser revelado nas coisas existentes. O narrador começa por enumerar «a aparição fantástica das coisas» nos objetos que o rodeiam, depois ele próprio como objeto a seus olhos  - « a presença iluminada de mim a mim próprio». Acontece então a valorização da vida, porque essa é a verdade «que queima» quando se vê «o absurdo da morte», gerador da angústia reveladora do significado autêntico da presença do homem no mundo. Aceite a condição humana, restaura-se «a partir daí a plenitude e a autenticidade de tudo» (p.10).

Braga, 1 de outubro de 2015
Maria José Domingues



[1] Aparição, Vergílio Ferreira, Bertrand Editora, 17ª edição, 1988. As páginas indicadas pertencem a essa edição.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Uma Abelha na Chuva II – para além da «reactualização da novela camiliana»




Mote: «Vida e morte o que são?»

Na continuação do artigo anterior, no qual se analisa a classificação feita por Óscar Lopes  a Uma Abelha na Chuva, este texto tem por objetivo apresentar alguns dos aspetos literários que ultrapassam a «reactualização da novela camiliana». Esta curta e lacónica definição pode ser lida como se o ortodoxo autor da Época Contemporânea da História da Literatura Portuguesa, afastasse a referida obra do cânone neo-realista. Penso que isto se deve ao facto de a simbologia aplicada por Carlos de Oliveira criar ambiguidades e dificuldades de leitura ao narratário, entidade alargada e focada pelos neorrealistas com vista à consciencialização do valor da luta de classes como dinamizador da transformação da História na direção de uma sociedade sem classes. Sobre esse objetivo neorrealista aplicado à obra, a imagem da colmeia não é paradigmática, uma vez que a sociedade que habita a colmeia é organicamente estática. Talvez Carlos de Oliveira quisesse ambiguamente transmitir que, de facto, apesar da luta de classes sempre existente na dinâmica social, o ser humano cria estruturas semelhantes às da abelha, nas quais a organização social regulada é considerada indispensável e aquele que não obedece às regras da colmeia corre risco de vida. E isto aconteceria em qualquer ditadura - em Portugal ou na URSS.
Muitos são os símbolos que percorrem a obra, desde os símbolos universais como a água e a abelha[1] até a certos nomes próprios, como o irónico nome Maria dos Prazeres ou o de Jacinto, nome de conotação mitológica.
O narrador exterior à ação conta a história, mas pode tornar-se muito próximo da personagem e até dialogar com ela («voz obsidiante» em Silvestre), no relato dos pensamentos que preenchem os momentos de silêncio.
 Numa focagem dos símbolos, percorre-se toda a obra pelos quatro dias em que decorre a ação principal, uma ação de tempo curto, próprio da tragédia clássica, com a qual a obra tem afinidades.
1º Dia – Os Silvestres
A viagem

Prevenido a partir do título, o leitor entra na colmeia global que é a aldeia de Montouro, tendo como antecâmara a vila de Corgos, nos três primeiros capítulos.
Antes da abelha, aparece o símbolo da água, na chuva forte de «uma tarde invernosa de Outubro», que acompanha a chegada da personagem tempestuosa: Maria dos Prazeres de Alva… Silvestre. Porém, nos dois capítulos anteriores, já conhecera o leitor a personagem enlameada do marido: Álvaro Silvestre. E onde há lama há água turva, tão turva como a consciência da personagem, revelada ao exigir a publicação da autodenúncia no jornal da terra e ao escondê-la no momento em que surge a esposa.
Como abelhas protegidas, o casal regressa à colmeia na charrete, em viagem tumultuosa, sob «a chuva miúda», pelos barrocais enlameados, mas também em viagem na corrente dos pensamentos de Maria dos Prazeres. E, nessa corrente, passava o desejo físico dela pelo belo cocheiro, Jacinto - «homem de oiro» -, e a repugnância pelo marido, e passava também, por meio da analepse, como se de uma «fonte» brotasse, a sua infância nobre e, depois, já longe da fonte, o seu casamento sem amor com a pequeno-burguesia, por obrigação filial - «sangue por dinheiro» e «a chuva caía, caía com certeza, no passado e agora». Com interrupções, «a água da memória» continuava a correr, aproveitando para informar, com desprezo de classe, por que razão estava Silvestre roído pelo pecado - «Rói-o o pecado como rói o musgo a concha da lapa». E a etapa final da viagem, já com a égua ferida, é conduzida pelo «incêndio» que lavrava dentro dela. Arrancara o chicote das mãos do cocheiro e «malhou» sem dó nem piedade no lombo do animal, acordando Álvaro Silvestre, que «emergiu do seu meio sono» e viu a mulher «com as lágrimas em baga pela cara, os cabelos soltos, manchada do oiro baço da luz […], bela, quase terrível: -Acaba, acaba, acaba, acaba…». Mais tarde, ao serão, o marido, em estado de semi-embriaguês, vê-la-á como «uma amazona galopando através das labaredas».

À luz do cânone do neo-realismo, vemos nos seis primeiros capítulos as três classes sociais representadas, sob a agressividade do tempo - a chuvada, a morrinha e os lameiros. Verifica-se que ainda domina a nobreza decadente (representada por Maria dos Prazeres de Alva) cruzada com a burguesia (representada por Silvestre), sendo esta última a classe dominante na República e no Estado Novo. O povo, representado por Jacinto, o ruivo cocheiro, surge, em efígie de oiro, a prestar serviço à classe dominante. O nome do cocheiro não é escolhido ao acaso, pode ser visto como uma referência à cultura clássica e sua mitologia, na qual, Jacinto é o nome do belo jovem companheiro e amigo do deus Apolo, que, por acidente, num jogo, o mata com o disco. Junta-se a esta história mítica outra que conta ter sido Zéfiro, o vento do Ocidente, também apaixonado pelo jovem, o causador da sua morte ao desviar o disco, por ciúme da preferência do jovem por Apolo. Também o cocheiro Jacinto será morto pelo ciúme de Silvestre, acrescido da ambição de António Oleiro.

O serão

À viagem segue-se o serão, que traz esclarecimentos à metáfora titular, no que respeita à abelha.
A introdução das novas personagens, a nata social, faz-se por ordem de chegada. Em primeiro lugar, chega o representante do clero, o padre Abel e dona Violante – sua irmã ou concubina - a quem são dedicados o sétimo e o oitavo capítulos; a meio do serão, chega a professora, «D. Cláudia, pálida e medrosa»; por fim, chega o médico e eterno namorado da professora, o dr. Neto, um sábio e diligente apicultor. Zelava pelos doentes e pelas abelhas - «bichinhos sábios comedores de pólen, simbolizavam no doce destilar dos favos o que a Vida, a Natureza, Deus ou lá o que era, podia arrancar de belo e saboroso ao tempo».
O dr. Neto é o filósofo do grupo dominador, dono de uma «filosofia nascida de três ou quatro jeiras de quintal, assente em realidades vivas, botânicas e animais, porque o dr. Neto amava a realidade e só daí é que partia para as abstrações, simbologias camponesas em que o mel, por exemplo, quase alcançava o teor de uma perfeição».
Discorrendo sobre «Vida e morte o que são?», Neto recorre ao exemplo das abelhas «para partir do simples para o complexo» e acrescenta «após a fecundação o destino dos machos é a morte». Note-se que no grupo do serão não há machos fecundadores, logo, eles estão a salvo da morte na narrativa. O macho fecundador será Jacinto, morto à paulada e lançado nas águas do mar.
Enquanto seroavam, Silvestre, o único do grupo que tinha por obrigação ser «macho fecundador», embriagava-se lentamente e imaginava, em prolepse, a sua morte, o velório, o funeral e a destruição do corpo, ficando-se com a pergunta: «E a alma?». Estranhas visões surgiram na sua mente. Via a mulher como amazona galopando através das labaredas infernais e atrás cavalgavam os outros convidados do serão. Tinha-lhe medo, porém, mais tarde, após a saída das visitas, o álcool deu-lhe forças para lhe atirar à cara que estava farto da nobreza que lhe viera comer as sopas. Ela, arrogante, considera a sua linguagem a de um cocheiro e conta que seu pai, perante a linguagem rude do seu cocheiro, o chicoteara, mas que os seus mortos já «não empunham chicotes». É o momento da rebelião classista de Silvestre, partindo os quadros da nobreza de Alva pendente nas paredes do seu escritório - «vidros estilhaçados acordavam um som agudo pela sombra». No futuro do tempo da narrativa, haverá mais um vidro estilhaçado, o da janela da casa do casal Silvestre, prenunciador da rebelião do povo.

2º Dia – A revelação

Madrugada - estilhaços, abelhas e água

A ação inicia-se na madrugada com um passeio matinal de Álvaro Silvestre, que passa pela olaria de mestre António, cego, que trocara a olaria de objetos úteis pela de santeiro. Ouvindo risos, espreitou o palheiro e deu-se a revelação fatídica: Clara, a filha do Oleiro, e Jacinto amavam-se alegremente na palha do curral e conversavam. Assim, Silvestre ficou a saber que Clara estava grávida e com problemas sérios em revelar ao pai o seu estado e o desejo de casamento, pela contrariedade do sonho do pai em casá-la com um lavrador rico; ficou a saber pela boca do cocheiro que Maria dos Prazeres o «comia com os olhos». E, mais uma vez, há estilhaços, agora, interiores: «na sua confusão interior a voz do ruivo bateu como um calhau no vidro»; «crescia da sonolência em que viera, subitamente estilhaçada pelas palavras do cocheiro».
No regresso a casa, de novo a questão «Vida e morte o que são?» e surgem-lhe na memória as respostas do serão, segundo os católicos, «vida e morte são o que são, a vontade criadora de Deus resolveu-se e criou», segundo o apicultor - «sabe-se que depois da fecundação o destino do macho é a morte».
A cena dos amantes continua, no curral, como no presépio - «a vaca, o jumento» -, após o afastamento de Silvestre. Jacinto pronuncia-se acerca da pequena burguesia rural, a propósito do lavrador rico desejado para marido de Clara por mestre António: «Bons para afogar no poço com dois pedregulhos amarrados às canelas» - indício trágico na narrativa.
Entretanto, Silvestre senta-se e recorda a pureza da infância idílica com as pombas e a fonte de «água múrmura, coada pelo berço do areal. Bebiam todos dela, chapinhavam num daqueles regatos breves que as chuvadas de inverno faziam transbordar do tanque de pedra carcomida. Cantavam». Esta água recordada limpou-lhe a alma e ele pôde pela última vez olhar a terra natal «respirar o ar transfigurado das manhãs infantis» e «tudo lhe pareceu cândido e simples como outrora, quando na concha do céu a claridade nascia com a sua brancura de espuma».
A recordação da infância, em analepse, cessou rapidamente e «o desespero sem remédio que espreitava dentro dele irrompeu de novo» e «a voz obsidiante persistia: quando quiseres matar a tua sede, lavar o sarro desta noite, das conversas tidas, das palavras ouvidas, a água secará de vez».

A vingança

Enlameado, vexado ao ver o ruivo, entra em casa, para sair rumo à mercearia, onde Lourenço, o caixeiro, está a abrir as portadas. São nove horas. Silvestre entra no escritório e luta contra o sono. Surge no seu espírito a síntese dos acontecimentos nefastos do conhecimento do leitor e a «voz obsidiante» aponta-lhe «um chão para os seus cardos» - Jacinto. «Concentrou no ruivo toda a força do seu pensamento; era ali que tinha que teimar, até meter o ombro numa fresta da porta e arrombar o quarto sufocante em que jazia».
Álvaro Silvestre era duplo na sua interioridade. Avisa o narrador que ele, até aqui, tem mostrado a sua consciência dúbia, temerosa e enlameada, mas que ele pode ter a estatura de um gigante quando «no recesso da alma» surge «o homem voluntarioso» e «sem escrúpulos», ainda que «efémero». Talvez essa duplicidade possa explicar «a voz obsidiante» que o atormenta.
Assim, surge o ato de vingança perpetrado por Silvestre, o «voluntarioso» e «sem escrúpulos». E manda chamar o cego oleiro a quem declara: «a sua filha desgraçou-se». Jacinto tinha sido entregue cobardemente. O cego declarou que o cocheiro iria dançar na corda bamba e «aprender quantas cabaças de água são precisas para matar a sede no inferno».
O oleiro prepara o assassinato de Jacinto, aliciando Marcelo, o seu empregado, com a dádiva de Clara, por quem ele se apaixonara, para o ajudar a consumar o crime à paulada, fazendo depois desaparecer o corpo do ruivo nas águas do mar.
O crime é consumado e a caminhada com o corpo sobre o burro até ao mar é feita debaixo de chuva intensa, transformada em tempestade na proximidade marítima. Mais uma vez temos o tempo/clima adverso às personagens e aos seus atos. E a voz que se faz ouvir junto do oleiro faz pensar a certos críticos na voz do diabo: «Cheira a iodo, o que é normal, mas também cheira a enxofre, já notou?; não pergunte porquê, estando eu aqui, precisa de perguntar?».

3º Dia – A denúncia

Clara acorda com o sino matinal. Jacinto não comparecera no palheiro. Noite em branco. Preparou o pequeno-almoço. Ninguém em casa. Nem o burro. «Indício sobre indício, a suspeita encorpava». Viu-os chegar, cobertos de lama. «Mataram-no, meu Deus, mataram-no» - os gritos de Clara alertaram o povo. Silvestre ouviu, mas a casa ficara silenciosa e ele adormeceu para acordar assumindo a culpa apenas na sua consciência: «Mataram-no e o culpado sou eu». E correu à garrafeira a enfrascar-se. Chegava o aglomerado do povo com o regedor à frente ao pátio da casa dos Silvestres. O pânico apodera-se dele e conta o sucedido à mulher. Fala ao regedor e ele diz estar ali para dar contas do sucedido ao cocheiro e que quer inspecionar o quarto dele. Depois da inspeção, Maria dos Prazeres expulsa-os a todos do pátio e alguém apedreja a vidraça, estilhaçando o vidro, assunto muito comentado ao serão.
[«Nenhum dos íntimos da casa presenciou os acontecimentos da manhã» - conta o narrador, no início do capítulo XXXII, com ironia literária e política, talvez com a intenção autoral de criticar o abstencionismo político em geral e o dos escritores presencistas em especial. É conhecida a polémica literária e política entre os escritores neorrealistas, conotados com o comunismo e politicamente empenhados na oposição ao Estado Novo, e os escritores presencistas – revista Presença – considerados abstencionistas políticos.]
Todavia, os íntimos da casa «seroaram» como habitualmente na casa dos Silvestres, comentando os acontecimentos e opinando contra o povo - «mancebias, arruaças, assassínio» -, sob o olhar do dr. Neto que os via desfigurados pelas chamas e «vê-los desfigurados é vê-los verdadeiros; todos eles fabricam fel, abelhas cegas, obcecadas». Propõe então um provérbio: «ver cada um com os olhos que tem». Ironicamente, diz que deve ter cataratas, porque «de conjetura em conjetura, está quase a admitir que a morte de Jacinto é tão importante como as janelas estilhaçadas». Este comentário é ambíguo, pois pode ser interpretado como a menorização do assassínio de um filho do povo pela classe dominante e pode ser interpretado politicamente como o embrião da luta de classes por parte do povo – o acordar do povo.
Álvaro Silvestre, em estado letárgico, ouve o nome do irmão pronunciado pelo padre e isso recorda-lhe o que fora fazer a Corgos, denunciar-se a si e a sua mulher como ladrões; mete a mão ao bolso e lá está o papel amarfanhado com o texto que desejara ver publicado no jornal - «tinha voltado ao ponto de partida, traçando um círculo vão». Ergueu-se de repente com a garrafa vazia na mão e desatou aos gritos: «-Onde é que há brandy nesta casa?».

4º Dia – Domingo – o alvoroço

No largo da aldeia o povo alvoroçado comentava o crime e já sabia que a revelação dos amores de Clara e Jacinto fora feita por Álvaro Silvestre, acusado pelo caixeiro Lourenço. O padre na homilia prega contra o boato, em defesa do amigo Silvério.

O dr Neto, após as consultas, tece a sua filosofia de apicultor. Acusava-se de ter pintado e repintado «a colmeia dos Silvestres», «sem atender que lá dentro o enxame apodrecia». Pensou em Clara e preocupou-se. Dirigiu-se à casa do oleiro, mas não chegou a tempo de salvar Clara que se suicidara no poço. De regresso a casa, a chuva caía e ele abrigou-se olhando as colmeias, que batizara de Cidade mais o nome de uma cor. «E viu uma abelha voar da Cidade Verde» e, logo, apanhada pela chuva, «deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a».

Interpreta-se a Cidade Verde como sendo a colmeia popular, na esperança de que o povo, face à tragédia, acorde para alcançar o poder ainda distante e construir um mundo novo. O autor transmite a noção de que se estava no dealbar dessa construção (em 1953) e que talvez não tenha sido vã a morte do casal. Contudo, na colmeia, a morte da obreira é superada e tudo continua a funcionar rotineiramente. E a morte do zângão, após fecundar a rainha, é a regra na colmeia. Parece haver um certo desespero autoral, transmitido através do símbolo da colmeia, perante o imobilismo salazarento de Portugal.

Desde o símbolo da água da fonte cristalina da infância até à conspurcação lamacenta progressiva da adultícia, temos a chuva adversa nos momentos cruciais da narrativa e, no final trágico, o mar e o poço. Porém, se a água é fonte de vida, do mar e do poço nascerá a voz da revolta do povo alvoroçado – talvez se possa ler assim a mensagem neorrealista da obra.

Outro aspeto importante a meu ver é a falta de procriação das personagens. Na colmeia apodrecida, o casal Silvestre não tem filhos; o casal Neto e Cláudia não casa e não procria; António tem uma filha que acaba por matar, ainda que indiretamente; Clara está grávida e suicida-se, levando o filho no ventre. Não existe procriação. A explicação pode estar presente na resposta à pergunta «Vida e morte o que são?». Eis a pergunta feita pelo filósofo apicultor, com efeito atormentador em Álvaro Silvestre e em qualquer ser humano consciente. Na obra há a resposta centrada em Deus, própria dos católicos, e a do apicultor, afirmando a morte do macho após o ato procriador, na colmeia. Quem quer procriar dentro da predestinação de nascidos para morrer? Carlos de Oliveira talvez não soubesse que profetizava a baixa populacional numa sociedade consciente dessa problemática existencial.

Setembro 2015
Mª José Domingues


[1] Encontram-se em itálico as palavras da área das palavras simbólicas: água e abelha.