sábado, 14 de junho de 2014

UMBELA - Quem é quem em Os Memoráveis de Lídia Jorge

Cada leitor, sua leitura…
Pode ler-se a última obra de Lídia Jorge como um romance, uma vez que pretende ser uma obra de ficção classificada como romance, o que permite todas as fugas ao real. Todavia, sabemos pela voz da autora que pretende homenagear os Memoráveis abrilinos. Entre a realidade e a ficção, a obra passa a ser uma charada da nomenclatura, pelo facto de a narrativa, nuns casos, apontar diretamente para o real histórico através de nomeação facilmente identificada, baseada em estratagemas decodificantes – a profissão (“o antigo embaixador”/ Franco  Carlucci), o código militar (Charlie 8 / Salgueiro Maia) e epítetos mais ou menos identificativos em contexto histórico (“juba de leão”/ Henry Kissinger, “Oficial de Bronze” ou o “Bronze”/ Vasco Lourenço, “El Campeador” / Otelo Saraiva de Carvalho) – e, noutros casos, criar  nomes que parecem resultar de sínteses de perfis, no caso de Umbela ou de Ernesto Salamida.
Certo é que, depois de começar a identificar quem é quem com relativa facilidade, o cérebro exige a continuação da pesquisa. Isso leva a um exercício infindável na ressurreição dos Memoráveis, numa época histórica particular.
Se a autora pretendia que os ressuscitássemos, eis a ressurreição, numa busca pela Internet, privilegiando a cronologia da Associação 25 de Abril, presidida por Vasco Lourenço, o preservador do Memorial, e o arquivo da Universidade de Coimbra, os jornais da época, bem como a obra de Otelo, O Dia Inicial, as duas obras publicadas pelo General Garcia dos Santos e ainda Carlucci vs Kissinger - Os EUA e a Revolução Portuguesa.

Apesar de todos os dados recolhidos, a personagem Umbela continua a incógnita. Tendo em conta o valor metafórico da palavra “umbela”, o epíteto pode significar o disfarce de uma identidade ou de várias, unidas no mesmo objetivo, tal como na botânica, na qual umbela é o termo utilizado para um conjunto de flores de pedicelos iguais que partem do eixo central, em formato de um guarda-chuva.
Verifique-se quem pode entrar na composição da personagem Umbela, decompondo-a, a partir da obra para os factos históricos.
  1.  «Umbela tinha sido um dos oito assaltantes do Rádio Clube» (p.137)
Foi possível encontrar uma foto in loco dos oito.




«O grupo que tomou o RCP; da esq. para a dir.: Capitão Mendonça de Carvalho, Major Campos Moura, Capitão Santos Silva, Tenente-coronel Sacramento Gomes, Capitão Santos Coelho, Capitão Santos Ferreira e à frente Capitão Correia Pombinho (de barba) e Capitão Santos Coelho (foto do arquivo de Santos Coelho)» (helderalmeidajournalist.wordpress.com/.../nao-sei-se-as-minhas-netas-ter...).

Muito agradeço a postagem desta foto. Nela se encontram oito militares, contudo, na legenda, apenas encontramos referidos sete nomes diferentes, uma vez que Santos Coelho está repetido. Verifica-se que falta o nome do major José Manuel Costa Neves.

2.     «agora […] major-general» [1] (p.136)

Dos oito nomes, apenas encontrei um Major-General, o Major-General José Manuel da Costa Neves, que pertenceu ao Conselho da Revolução e assinou o «Documento dos Nove».A confirmar a identidade poderemos transcrever a afirmação de Umbela: «Porque eu nasci numa cidadezinha de província onde havia uma Mata Real». Certo é que o general Costa Neves nasceu nas Caldas da Rainha, onde existe A mata da rainha Dona Leonor, que confina com o Parque D. Carlos I.

3.     «Porque estava tão sentido o general?» (p.153).


Do Major-General José Manuel da Costa Neves, encontrei os seguintes artigos muito críticos da corrupção na política: POLÍTICOS SEM MÁCULA – (1)  e (2) – por José Manuel Costa Neves. Transcrevem-se os agradecimentos - «*Agradecemos ao general José Manuel Costa Neves, à ‘Associação 25 de Abril’ e ao seu boletim oficial REFERENCIAL.  a autorização concedida para afirmação a transcrição do presente artigo»[2] - e extratos dos artigos, que tiveram como motivação a afirmação da Dr.ª Cândida Almeida,  num curso da Universidade de Verão do PSD: “os nossos políticos não são corruptos, os nossos dirigentes não são dirigentes corruptos”. Ao que o general respondeu, escrevendo: «Se calhar não. Mas, tendo em conta a prosperidade galopante de que muitos dão mostras, em flagrante contraste com o acelerado empobrecimento da generalidade dos portugueses, lá que parecem sê-lo, parecem». E, depois de explanar a situação indicadora da corrupção, apela ao acordar do povo:
«Acordar é imperioso. Os portugueses não podem continuar a assistir, impávida e serenamente, ao alastramento e consolidação da corrupção impune e impudente praticada por políticos venais, protegidos e apoiados por clientelas partidárias pouco escrupulosas. É urgente libertarem-se do estado letárgico em que se encontram e reagirem, no interesse de todos, contra o actual estado de coisas. Análises desapaixonadas do que se passa no mundo mostram que a corrupção está invariavelmente associada ao subdesenvolvimento, à pobreza, à tirania, à criminalidade violenta e até à guerra. É inquestionável a existência de uma relação directa entre níveis de corrupção e níveis de pobreza, injustiça e desigualdade social, numa triste demonstração de que os corruptos medram à custa da miséria que a sua ambição insaciável, mesquinha e sórdida, semeia à sua volta. […] Varrer dos cargos públicos toda essa gentalha que apenas procura servir-se do Estado, que é de todos nós, em vez de o servir, é uma ciclópica e difícil tarefa, sobretudo numa sociedade que, para além de culturalmente tolerante com os abusos do poder, dispõe de um sistema democrático com uma componente participativa praticamente inexistente e uma componente representativa ferreamente dominada por estruturas partidárias, cujo comportamento muito tem contribuído para inquinar o funcionamento da democracia, desvalorizar o serviço público e promover a irresponsabilidade e incompetência no aparelho do Estado».

Todavia, nestes textos, não se trata de uma ofensa de honra pessoal. O general está sentido por uma ofensa ao povo português, perante a qual  considera necessário e urgente reagir.
Talvez por isso, Umbela deva albergar mais alguém pessoalmente magoado na honra, para que se responda à pergunta: «Porque estava tão sentido o general?». E a resposta poderia ser o nome do general Amadeu Garcia dos Santos - um militar de Abril que tratou das transmissões do Posto de Comando da Pontinha e trabalhou na contenção do 25 de Novembro, tendo sido Secretário de Estado das Obras Públicas, entre 1974-1976, desempenhado o cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) de 27/01/81 a 22/11/1983, data em que foi exonerado por Eanes, por exigência de Mário Soares, sem explicações e sem recolocação. Esse facto político altamente constrangedor e lesador, manteve-se durante anos, até que, a 3 de Novembro de 1988, o general pôs uma ação de responsabilidade civil contra o Estado Português, que acabou, em Novembro de 1992, com a passagem do general à reserva sem indemnização. Isto não vem na narrativa ficcional, mas pertence à narrativa histórica, elaborada pelo general, na obra publicada em 2011, Memórias Políticas: um pouco do que vivi – também por isso a mão direita estaria escondida, ela seria a sua arma, não empunhando uma Walther, mas brandindo a escrita[3]. Nessa obra, ele conta o que se passou, em 1997 - «1998» (p.157): por convite do engenheiro Cravinho, Ministro do governo de António Guterres, Garcia dos Santos aceita dirigir a Junta Autónoma das Estradas, para pôr ordem na casa. Descobriu desvio de dinheiros e pôs os nomes aos bois, salvaguardando os nomes das fontes. Fez as propostas de limpeza, que Cravinho encravou. O General pediu a demissão em Junho de 1998 e deu uma entrevista ao Expresso, a 3 de Outubro de 98, na qual denunciou a situação e a corrupção encontrada. As declarações do general, levaram-no a uma audição no gabinete do PGR, Cunha Rodrigues, e ainda a uma comissão parlamentar de inquérito. O Tribunal Criminal de Lisboa sentenciou o pagamento de 135 mil escudos por crime de desobediência qualificada, pela recusa de dar os nomes dos empreiteiros que o tinham informado da existência de desvios de dinheiro da JAE, incluindo a resposta ao quem e para quem. Terminada a leitura da sentença, Garcia dos Santos manifestou o seu descontentamento em relação ao desfecho deste caso. «"A realidade é esta: ainda não vi nenhum dos corruptos da JAE ser condenado. Dizem que há processos na Procuradoria-Geral da República. Se há, não sei. Já saí da JAE há quase dois anos e até hoje ainda não conheci ninguém condenado", sublinhou. Em comentário à pena que lhe foi aplicada - 135 mil escudos -, Garcia dos Santos diz ser talvez o "maior louvor" que teve na vida, porque foi punido por ter cumprido a palavra dada, que assumiu até "às últimas consequências"»[4].

Concluí que o general Costa Neves e o general Garcia dos Santos são homens que lutam contra a corrupção, pelos ideais de ABRIL. Poderiam estar ficcionados como chefes militares daquela «coluna militar, que tinha por objetivo as portas do Tribunal da Boa Hora, nome de código Cairo, que ainda não chegou ao seu destino» (p.191).
Em Os Memoráveis, Umbela afirma que é a sua honra que está ferida e que tem de ser lavada, para isso vai pôr processos e mover ações, pelos milhares que não o podem fazer e que «não podem esperar». E «a revolução de há trinta anos vai ganhar» (p.165). Poder-se-á dizer que estamos perante o herói anticorrupção, por quem o povo clama.

(a continuar)
Maria José Domingues










[1] Nas marinhas, exércitos ou força aéreas de alguns países, a designação é utilizada como título da função de chefe ou subchefe de estado-maior.
[3] Em 2013, o General publica  Apontamentos Políticos: Eanes e os Partidos.
[4] http://www.publico.pt/sociedade/noticia/garcia-dos-santos-condenado-a-multa-de-135-contos-

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Os Maias e os Direitos da Mulher


    Releio Os Maias de Eça de Queirós em constrangimento pelo modo como as personagens femininas são tratadas. E penso no tempo imenso decorrido até ao reconhecimento dos direitos das mulheres.
   O movimento fraterno e igualitário da revolução francesa não conseguiu dar o direito de cidadania à mulher. Uma luta árdua foi necessária para que as sufragistas conseguissem o direito ao voto. O século XX foi vendo aos poucos a mulher europeia alcançar os seus direitos.
   Mas pensemos na vida familiar e literária de Eça de Queirós e nas razões que o terão levado a criar aquelas personagens femininas e não outras.
   Do ponto de vista familiar, Eça tinha razão de queixa das mulheres, pois, sabendo-se quem era sua mãe, ele foi registado como filho de seu pai e de mãe incógnita, a qual viria a casar com seu pai, aos 4 anos de Eça, mas nem por isso o assumiu e criou.
   Do ponto de vista literário, ao criar as personagens femininas, seguiu a escola realista/naturalista, de acordo com as ideias expressas nas Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, em 1871, ao apresentar a nova corrente estético-literária: "O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, ia quase a dizer, a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc., e, apontando-o ao escárnio, à gargalhada, ao desprezo do mundo moderno e democrático - preparar a sua ruína". A ser assim, entende-se que seria mesmo o constrangimento que ele queria provocar, para que a condição feminina fosse melhorada. Contudo, duvido que os homens o tenham compreendido deste modo. Durante a releitura, pensei com frequência que a obra tinha sido pensada e criada por homem para homem. É evidente que nada disto reduz o valor literário da obra.
     Do ponto de vista histórico, vivia-se em monarquia e a nobreza ditava a carta comportamental. A burguesia em expansão pretendia atingir o estatuto daquela classe. As burguesas procuravam casar com titulares. A desocupação das mulheres expandia-se à medida que a classe média crescia, pois as jovens não estudavam nas universidades e as mulheres das classes abastadas não tinham profissão. As personagens femininas da obra, apresentadas de acordo com a sociedade em que se inserem, revelam a desocupação, a coqueteria, a vaidade, a arte de agradar aos homens e o consequente adultério.
     Nessa arte de não fazer nada de útil, não suscitam respeito. E pode afirmar-se que existe na obra falta de respeito pelas mulheres, apenas com uma exceção clara: a tia Fanny, personagem secundária, irlandesa, católica, culta e racional, muito admirada por Afonso da Maia a quem ela ensinara inglês. A questão da educação é uma das vertentes importantes na obra.
      Sobre a "aculturação" da mulher, assiste-se a diálogos, nos quais João da Ega defende o princípio popular, que ouvi repetidamente na minha infância: «mulher que fala latim e burra que diz im retira-te de mim», registado por escrito em Carta de Guia de Casados de D. Francisco Manuel de Mello.
       Assim, em casa dos Gouvarinhos, acabado o jantar, «os homens, sós, acenderam os seus charutos» e Ega conversava com o anfitrião sobre mulheres, a propósito da secretária da Legação da Rússia, fisicamente deliciosa para Ega, enquanto o conde lhe gabava o espírito e a instrução. «Isso, segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser bela, e depois ser estúpida... O conde afirmou logo com exuberância que não gostava também de literatas; sim, decerto o lugar da mulher era junto do berço, não na biblioteca...». Todavia, considerava agradável que uma senhora pudesse conversar sobre coisas amenas, como o artigo de uma revista, um livro leve como os de Feuillet. Enfim uma senhora devia ser prendada e, nesse momento, chama Sousa Neto à conversa, que, como é de sua postura, concorda:
          «Neto, grave, murmurou:
          — Uma senhora, sobretudo quando ainda é nova, deve ter algumas prendas...
         Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas literárias, sabendo dizer coisas sobre o Sr. Thiers, ou sobre o Sr. Zola, é um monstro, um fenómeno que cumpria recolher a uma companhia de cavalinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher só devia ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem» (pp. 397-398).
       Muito mais se poderia citar da obra, para comprovar a denúncia eciana da falta de consideração e respeito pela mulher na sociedade lisboeta. 
    Decorreriam ainda muitos anos de luta feminina para a conquista da igualdade de género quase um século até à Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, conhecida por Carta Internacional dos Direitos das Mulheres, promulgada em 18 de Dezembro de 1979, no âmbito das Nações Unidas.
Maria José Domingues

segunda-feira, 28 de abril de 2014

OS MEMORÁVEIS DE LÍDIA JORGE E O TESTAMENTO DO POETA MAGREBINO


Tahar Djaout  ou Mou'in Bsissou?
"Si tu parles, tu meurs ; si tu te tais, tu meurs. Alors, parle et meurs !"

Leio a excelente obra de Lídia Jorge com o google à mão e fico confusa acerca da autoria do intitulado «testamento do poeta magrebino», pendurado numa nesga da parede do escritório da personagem António Machado, jornalista, que transportava consigo «o excesso de testemunho e de autoria».
Do que indaguei, concluí que o dito testamento fora atribuído ao poeta magrebino Tahar Djaout  (1954-1993), um dos primeiros intelectuais vítimas do terrorismo algeriano, na década de 90. Porém, não tendo sido encontrado o poema na sua obra, veio a ser atribuído ao palestiniano Mou'in Bsissou (1926-1984). Leia-se então, a junção dos dois, na transcrição, em http://www.ziane-online.com/textes/litterature/ecrivains_algeriens/tahar_djaout/13e_anniversaire.htm :

«Victime, le 26 mai 1993, d’un attentat terroriste au pied du bâtiment où il réside à Baïnem, Tahar Djaout y succombera après une semaine de coma le 2 juin. C’était trois semaines avant l’assassinat d’un autre intellectuel, Mahfoud Boucebsi- qui faisait partie d’un groupe créé pour demander la vérité sur l’attentat commis contre Djaout- et un mois avant l’assassinat du président du HCE, Mohamed Boudiaf. On ne sait si un jour l’histoire pourra se pencher sur cette période noire de l’Algérie qui a vu la fine fleur du pays décapitée au nom de l’idéologie intégriste. Medjoubi, Alloula, Belkhenchir, Chergou, Mekbel, Boukhobza, Liabès et tant d’autres cadres et intellectuels ont subi le sort macabre décidé par une secte d’assassins. Chaque semaine, un nom nouveau s’ajoutait au martyrologe. A tous, il est reproché la libre pensée, la franchise, l’honnêteté et l’engagement dans la société. Fallait-il se taire ou continuer à parler, à écrire et à se battre pour faire valoir la raison, l’intelligence et la vie ? Djaout n’y va pas par quatre chemins pour nous appeler à mourir dans la dignité : "Si tu parles, tu meurs ; si tu te tais, tu meurs. Alors, parle et meurs !". Cette citation du poète palestinien Mouin Bsissou deviendra une devise que même les tagueurs de Kabylie reproduiront sur les murs lors des journées sanglantes de la révolte citoyenne en 2001.»


O testamento do poeta na obra de Lídia Jorge está traduzido para português, «para que não se perdesse um átomo do seu sentido» com o acrescento à mão de «E nós também»:

Silêncio é morte
e tu, se te calas
morres, e nós também
e se falas
morres, e nós também
então diz e morre. E nós também.

Epígrafe excelente para jornalistas, escritores e para todos nós. Obrigada, Lídia, pelo testamento e pela sua obra.