quinta-feira, 19 de dezembro de 2013



CANÇÃO DE NATAL



 

quem quer ser maria
ao senhor obedecer
no feminino parir e sofrer
faça-se em mim a sua palavra
ó escrava do divino
de olhos postos e mãos direitas
como é perfeita
os anjos cantam o doce hino
para ela e para o menino

o homem louva a submissa
canta-lhe o hino e reza missa
descem os anjos a seu comando
e os violinos vão tocando
quem quer ser maria
muitas correm à porfia

passam os séculos e assim é
mas a outra bate o pé
queima-se a bruxa na fogueira
maria é boa e fagueira
ao poder do homem diz que sim
ele é poderoso e fala latim

mjd




















terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Postal de Natal

Para todos os visitantes o meu postal de Natal. mjd


A Virgem, o Menino e Santa Ana de Leonardo da Vinci, 1510, óleo sobre madeira 168 × 112 cm Museu do Louvre, Paris



Sorrir
Olhar
São quatro a brincar
Em amor e ternura
Cadeia pura
Harmonia
Universal

Boas Festas
 Feliz Natal

                                      mjd

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Aprender a Morrer

Aprender a morrer é uma vertente da vida muito cara à autora deste blogue; sendo que «aprender até morrer» inclui a aprendizagem do morrer - a única certeza dos seres vivos. Em Junho, postou-se um texto tradutor da preocupação por essa aprendizagem tão oculta. A máxima «Para morrer basta estar vivo» simplifica o problema de uma forma redonda e absoluta. 
Já vi morrer uma pessoa muito querida com a consciência plena de que chegara o momento da morte. Senti que a sua morte era encarada como uma partida para o lugar da sua crença, uma vez que o seu apelo foi uma declaração de confiança dentro da sua fé. Concluí que a crença pode ajudar os crentes na sua «passagem».
Motivou-me voltar ao assunto o artigo do Expresso de Tolentino de Mendonça, intitulado «Aprender a morrer». Dele saliento as seguintes ideias: «a morte é uma expressão da vida» e pode ser encarada como a oportunidade para olharmos a vida mais profundamente, pois ela amplia-a. Depois disto, o autor envereda pela aprendizagem «a estar com os outros», citando a obra de Cicely Saunders  Velai comigo, que diz repetir continuamente a frase «Temos de aprender». Tolentino acrescenta que temos de aprender a embalar a fragilidade dos outros e a nossa, ajudar a não desesperar e a encontrar um fio de sentido...
Tolentino é crente, é padre, e isso permite-lhe ir para além da ciência acerca de «que coisa são as nuvens» - temática geral das suas crónicas.
Aprender a morrer parece ser mais difícil para uns do que para outros, na certeza de que é sempre difícil e assunto tabu naquilo que diz respeito ao próprio formulador do problema. Situados aí,  a resposta está nos outros e na nossa relação com eles. Insatisfeita com as não respostas, continue-se a aprender até morrer.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

CLARABOIA de José Saramago (uma leitura crítica)




Sou uma leitora da obra de José Saramago.
Num primeiro momento, a obra gerada nos anos cinquenta do século passado, a segunda obra do autor, não me interessou de imediato, embora não a esquecesse por a desejar. Encontrei-a há dias com 60% de desconto na feira do livro do Continente e nem hesitei em comprá-la e em lê-la de imediato. A obra de Saramago implica estudo, atenção, registo. Estamos perante um autor que é um óptimo observador e um grande leitor.
Era minha intenção alinhar as imperfeições desta obra face ao aperfeiçoamento contínuo processado na sua carreira de escritor. Confesso que pouco anotei, perante a construção bem estruturada da narrativa, em prédio de rés-do-chão e dois andares, onde vivem seis agregados familiares. Em alternância, assiste-se à rotina e ao quebrar da mesma de cada um dos grupos humanos. Destaca-se a personagem Silvestre todo José Saramago, no amor, na solidariedade e na esperança num futuro melhor. Esperança que se vai esvaindo na obra saramaguiana, se atendermos ao final desesperançoso da sua obra. E recordo Caim em homicídio colectivo, para ficar frente a frente com deus, perante o qual só sente revolta.
Silvestre teria sido construído em homenagem ao avô Jerónimo Hilário, a quem a obra é dedicada. Se assim não é, foi assim que eu senti que fosse.
Com a intenção de encontrar imperfeições e perfeições fui lendo a obra e fazendo os registos que se seguem:
  1. O título CLARABOIA é uma palavra bem sonante e de grande significado na obra. O narrador como que espreita pela clarabóia do prédio de seis inquilinos, para penetrar no âmago da sociedade portuguesa dos anos 50, na qual, para subir economicamente, era preciso uma ‘palavrinha’ de alguém a alguém de maior importância, senão não se sairia de cepa torta. Essa ‘palavrinha’ podia levar consigo alguém como Lídia ou Maria Cláudia. A sociedade, aparentemente inocente. era de uma perversidade hipócrita e maledicente. Abrem-se excepções na sociedade para aqueles que trabalham e estudam/lêem, tendo como ideal a esperança de uma sociedade melhor.
  2. A personagem Silvestre, o sapateiro, surge bem delineada, apenas com um senão que me levou a parar e a estudar o assunto da descrição das pernas do sapateiro adjectivadas de «enfezadas», para, depois, com espanto, surgirem altas, ainda que excessivamente magras. O referido adjectivo conduz o imaginário do leitor para pernas pouco desenvolvidas no que respeita ao osso insuficientemente mineralizado, pelo que não poderiam ser altas e de osso bem desenvolvido. Penso que o problema das pernas do sapateiro estaria na musculação atrofiada pela posição do ofício. Enquanto o tronco se desenvolveria pelo trabalho braçal, os músculos das pernas ir-se-iam atrofiando na posição de sentado.
  3. O retrato da gorda Mariana traduz o olhar amoroso, a que o autor nos habituou no tratamento da mulher amada. E o sentimento amoroso do casal, Silvestre e Mariana, é cuidadosamente tratado em gestos atentos e em palavras reveladoras de uma relação amorosa saudável, cheia de graça e de sensibilidade.
  4. O corpo da menina Isaura parece-me sofrer de excesso de adjectivação com desnecessária adversativa (p.17): «esguio e magro, mas flexível e elegante». Em meu entender, bastaria: esguio, flexível e elegante; ou apenas: esguio e flexível.
  5. Destaca-se o cenário lisboeta com rio e neblina nos olhos e no sonho da costureira Isaura, por onde viaja uma fragata de descrição primorosa na sua mobilidade. Fez-me lembrar Pessoa.
  6. O narrador não aprecia mulheres grandes: «demasiado grande para mulher», a propósito da vizinha Justina (p.22), que vivia em casa com «atmosfera de túmulo» (39), acompanhada do gato e do marido jornalista, baixo e atarracado. Pelo silêncio de sua casa, Justina acompanha todos os ruídos do prédio - uma 'clarabóia' auditiva.
  7. As mulheres sedutoras, a sensual Lídia e a jovem e bela Maria Cláudia, são empurradas pelas progenitoras para escravas sexuais de homem rico, numa visão comercial da maternidade.
  8. Lídia lê Os Maias para preencher o ócio, «interessadíssima no mundo fútil e inconsequente de Os Maias» (p.37) e sublinha uma frase de Maria Eduarda a Carlos: «além de ter o corpo adormecido, o seu corpo permaneceu sempre frio, frio como o mármore». Talvez possamos ler na primeira citação a opinião do autor sobre a referida obra de Eça de Queirós.
  9. Isaura lê todas as noites. O narrador refere a leitura de A Religiosa de Diderot (86) e transcreve a parte em que a madre superiora tenta seduzir Susana – talvez o nome escolhido por Diderot para a personagem seja referência intertextual ao episódio bíblico de ‘a casta Susana’ (133-140). A obra lida viria a desempenhar um papel importante no autoconhecimento de Isaura: a sua homossexualidade descoberta quase em simultâneo por ela e pela irmã assediada enquanto dormia. Segue-se a zanga das duas irmãs e a inquietação curiosa das duas mulheres mais velhas.
  10. O culto da música clássica faz-se em casa de Isaura e Adriana com dificuldade em entender os que ouvem música ligeira, o caso de Maria Cláudia. Assiste-se à discussão sobre o bom e o mau, o bem e o mal – relativismo ou certeza (88-91).
  11. Em oposição ao tardio Caim, encontrámos a personagem Abel, que se hospeda em casa do sapateiro. Abel vai reler Os Irmãos Karamazov de Fiodor Dostoievski, para esclarecer «alguns juízos resultantes da primeira leitura» – considera esse acto um trabalho (117). Silvestre e Abel, um encontro de caracteres interessante como estratégia que permite a apresentação e o desenvolvimento de ideias políticas e sociais. Saliente-se o decadentismo de Abel formulado na pergunta «para quê», à qual os poetas tentaram dar resposta na poesia do final do século XIX e princípio do séc. XX – refira-se Eugénio de Castro com resposta de Fernando Pessoa e o poema «Para quê» de Afonso Lopes Vieira. Abel queria descobrir o sentido oculto da vida, contudo, a isso, já Pessoa respondera: «mas o sentido oculto da vida é não ter a vida sentido oculto nenhum». Enquanto Silvestre defende a utilidade da acção, Abel responde com Fernando Pessoa: «Queriam-me casado, fútil e tributável?», para referir a gratuitidade da poesia em geral e da pessoana em especial (267). Dir-se-ia que o autor aprecia essa poesia como arte, mas, para a sua arte, opta pela utilidade, pela escrita defensora da ideologia socialista, já esboçada neste romance pela voz de Silvestre, herdeiro dos livros de outro Abel, o falecido Abel Nogueira, socialista autodidacta. A consciência da inutilidade é apresentada como o calcanhar de Aquiles do jovem Abel.
  1. «De Espanha nem bom vento nem bom casamento»: apresenta-se o casal infeliz do português Emílio com a espanhola Cármen, cujas falas são escritas em castelhano, mostrando domínio dessa língua por parte do autor. A confirmação nesta narrativa do aforismo não pode deixar de despertar um sorriso no leitor de hoje, por saber que Saramago encontrou o amor e a felicidade junto da espanhola Pilar.
  2. A construção do vocativo: «Mas, oh, homem, quem te diz que não é o caso do senhor Morais?» (p. 252) e «oh, sociedade» (p.272) – aquele «oh» deveria ser o ‘ó’ do vocativo. E ficaria: ‘Mas, ó homem,’, ‘ó sociedade’.
  3. Como leitora de Saramago aprecio muito o processo de desconstrução das expressões feitas. Acontece que neste segundo romance dos longínquos anos 50, Saramago já desfaz a expressão  «cortar as pernas» (p.255), distanciando-se através do olhar de um estrangeiro imaginário que estivesse a ouvir e a ver a cena.
Conclusões:
  1. Tal como nos romances seguintes, Saramago revela um extraordinário poder de observação na descrição dos ambientes e das personagens..
  2. Exemplar tratamento do universo masculino e feminino nos anos 50:
    1. os homens ou mulheres ‘homadas’ preocupados com o dinheiro e as mulheres prestando-lhes contas quer estejam ou não em dependência económica.
    2. Os casais desavindos em urgência de divórcio, antes que pratiquem um crime.
    3. O papel do amor autêntico capaz da transfiguração em personagens com vidas úteis, pautadas pela construção esperançosa de um mundo melhor.
    4. A paternidade e a maternidade apresentadas como estragadoras do filho (Henrique) ou das filhas (Lídia e Maria Cláudia) – relação complicada entre pais e filhos, talvez, por isso, a referência à obra Os Irmãos Karamazov.
  1. A importância dos media nos anos 50:
    1. A rádio na família de Adriana para a música clássica; na família Anselmo para música ligeira, fado e noticiário.
    2. A importância do jornal para o sapateiro, que o lia de ponta a ponta, e para Anselmo, a quem interessava sobretudo para a estatística do futebol.
    3. A importância do livro e das bibliotecas: a sabedoria, a cultura geral, a citação sobretudo de Fernando Pessoa, mas também de Shakespeare. A influência da obra literária para o autoconhecimento – o caso de Isaura com A Religiosa de Diderot.

Apreciei deveras a obra. Nascida em 1944, considero Clarabóia um belíssimo retrato social com a brecha necessária para o amor e a esperança.O prémio está em amar, transfigurar e construir na esperança de que o mundo venha a ser melhor. Veja-se para terminar o pequeno excerto assinalado na contracapa, tradutor do ideal do futuro prémio Nobel:
«- Vivemos entre homens, Ajudemos os homens.
- E que faz o senhor para isso?
- Conserto-lhes os sapatos. Já que nada mais posso fazer agora

Maria José Domingues
     

domingo, 28 de julho de 2013

Um garoto e seu Átomo - O menor Filme do mundo.

Jason Palmer
Repórter de Ciência e Tecnologia da BBC News

«Pesquisadores da IBM criaram o menor filme do mundo – uma animação simples mostrando um menino - ao manipularem átomos de carbono em uma superfície de cobre.
A animação de 90 segundos, intitulada Um Menino e seu Átomo, foi feita usando uma técnica chamada stop motion, em que o objeto (no caso, os átomos) é manipulado e filmado quadro a quadro.
O filme mostra o menino brincando com uma “bola” (feita de um único átomo), dançando e pulando. Cada esfera que forma a imagem do menino também é um átomo.
Quatro cientistas tiveram que trabalhar 18 horas por dia durante duas semanas para completar a animação, que tem 242 quadros.
Para se ter uma ideia do tamanho do filme, mil quadros dele colocados lado a lado teriam a espessura de um fio de cabelo humano.

Agulha

Os átomos foram movimentados usando um microscópio especial.
O instrumento funciona com uma agulha muito fina e com carga elétrica que, ao ser passada sobre uma superfície, "salta o intervalo” entre um átomo e outro, criando um efeito físico conhecido como "tunelamento quântico”.
Os 242 quadros do filme são, essencialmente, mapas dessas "correntes de tunelamento”.
"A ponta da agulha é tanto os nossos olhos como as nossas mãos: ela percebe os átomos para fazer imagens de onde esses átomos estão, e então é movida mais próxima aos átomos para guiá-los sobre a superfície para novas posições”, explica Andreas Heinrich, pesquisador-chefe do Centro de Pesquisas da IBM, na Califórnia.
"Os átomos se mantêm em suas posições porque formam ligações com os átomos de cobre abaixo da superfície, e isso nos permite fazer uma imagem de todo o conjunto de átomos em cada quadro do filme”.
"Entre cada quadro, nós movemos cuidadosamente os átomos para suas novas posições e fazemos outra imagem”, indica.
Heinrich diz que o objetivo do filme foi incentivar novas gerações a se interessar por tecnologia e pelas ciências.
"Isto (o vídeo) não é de fato um avanço científico. O filme é na verdade um estímulo para que as crianças e demais pessoas discutam e se empolguem com assuntos como matemática, ciência e tecnologia”, conclui.
O filme evidencia a crescente capacidade de cientistas de manipular a matéria no nível atômico, algo que cientistas esperam usar no futuro para criar novas soluções para armazenamento de dados.
No ano passado, cientistas da IBM demonstraram a possibilidade de guardar um bit – unidade digital de informação – usando apenas 12 átomos.»

https://www.youtube.com/watch?v=Zf-hc9Y3W4Q