sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Nuno Crato e a instrução salazarista


do Jornal Correio do Minho de 5 de Janeiro de 2012:

Nuno Crato e a instrução salazarista

            Quando iniciei a minha docência no ensino liceal, na década de sessenta, as orientações do Ministério da Educação Nacional iam no sentido de favorecer a transmissão de conhecimentos, privilegiando a memória e evitando qualquer juízo crítico dos alunos. Não faltavam sequer modelos de composições literárias decoradas para adaptar nas provas de exame. Era sagrado o princípio de que “a ciência é filha da repetição”, na linha tradicional do ensino pela sebenta. Enquanto o aluno repetisse o que o mestre dizia, estava no bom caminho, pois não punha em causa o sistema nem o regime político. “Aluno instruído” era cidadão politicamente conformado.
            A partir da década de setenta, com Veiga Simão, e ao longo de trinta e cinco anos de regime democrático, o Ministério da Educação, orientado por ministros socialistas e sociais-democratas, concedeu relevo ao espírito crítico, às condições de formação de autonomia pessoal, à flexibilidade mental, numa palavra, à formação de pessoas mais livres e mais capazes de interagirem com responsabilidade e solidariedade, sem descurar a aprendizagem dos conteúdos programáticos.
            Quando analisamos a história da educação em Portugal, não podemos deixar de verificar o nosso atraso cultural no confronto com a maioria dos países europeus. Os progressos verificados nestes trinta e cinco anos de democracia só podem ser devidamente avaliados na sua relação com séculos de desprezo pela escola. É certo que tivemos, em momentos cruciais da nossa História, elites culturais de grande mérito. Mas o grande corpo da Nação ficou à margem do saber e da cultura.
            A filosofia político-educacional “social-democrática” (da responsabilidade de ministros socialistas, sociais-democratas e independentes) “contagiou” muitos professores que souberam programar e trabalhar em grupo, elaborar planos curriculares, centrar o ensino no aluno, desenvolver capacidades, incentivar a autonomia, tendo em vista o ensino-aprendizagem.
            No âmbito das minhas funções de deputado, na comissão de educação da AR, entre1982 e 1987, pude trabalhar de perto com destacados profissionais da educação do PS e do PSD. Não havia entre nós divergências de fundo. Agora, ao ler o despacho de Nuno Crato, que revoga o documento Orientações Curriculares do Ensino Básico, pergunto-me como reagirão esses militantes sociais-democratas. O ministro tem o despudor salazarista de falar de instrução em vez de educação, ou seja, de pretender como resultado «membros instruídos da sociedade». Centrando-se nos conteúdos, deita fora todo o processo de aprendizagem tendente à construção da autonomia do aluno. Por outro lado, reforça o isolamento do professor na sala de aula, já que não há, no despacho, uma só palavra para a relação do professor com o seu departamento, com o projecto de turma e de escola, com o progresso inter-individual.  Nuno Crato transpõe para o despacho as suas diatribes do programa televisivo “Plano Inclinado”. Ministro independente da esfera partidária tem de ser confrontado com a matriz social-democrata a única que foi sancionada pelo voto nas eleições legislativas.
            Resta-me a esperança de que as escolas e os professores saibam aproveitar a margem de autonomia pedagógica concedida pelo ministério, para não deitarem fora “o menino com a água do banho”. Saberão os docentes ultrapassar os excessos de burocracia e os pontuais facilitismos de algumas orientações ministeriais anteriores, para não recuarem nos grandes objectivos do ensino-aprendizagem? O caminho faz-se caminhando e não recuando a preconceitos e obscurantismos geradores de inércia, de passividade e de alienação. Que no ano hoje iniciado (escrevo no dia de Ano Novo) os profissionais de ensino saibam vencer o desânimo provocado pelos cortes nos vencimentos e reavivem a chama do nobre ideal de ajudar a formar pessoas mais livres, mais felizes, mais fraternas e mais solidárias. Eis os meus votos para 2012.                                                                                                          Agostinho Domingues

domingo, 1 de janeiro de 2012

Contra o Despacho n.º 17169/2011 de Nuno Crato


A matança da pedagogia

  1. Competência em educação é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades, informações, etc.) para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações.O conceito de competência, para este legislador, limita-se à tarefa específica: eu sou competente para escrever cartas familiares em francês, logo, eu apenas sei escrever cartas familiares em francês. Os pré-requisitos (a aprendizagem da língua, o uso da pontuação, etc.) não são tomados em linha de conta, na perspectiva do despacho.
  1. Até dói ler: «Em segundo lugar, desprezou a importância da aquisição de informação». Nunca antes a informação tinha sido tão trabalhada, na sua fonte, na recolha e no tratamento até à resolução de problemas que tinham que ser solucionados e apresentados para a avaliação.  
  2. «Desprezou o desenvolvimento de automatismos e da memorização» – certamente quer referir-se à enunciação das regras e das excepções, à tabuada e aos verbos cantados da escola tradicional salazarenta, na qual uma minoria cantava sem perceber os mecanismos da cantata.
  3. Segue-se o elogio da pedagogia por objectivos bloomianos «claros, precisos e mensuráveis» (não é assim nos bancos e nos hospitais? Pedagogia que conduziu a América à bancarrota arrastando a Europa?).
  4. Objectivos generosos «impossíveis de aferir» – ser ou não ser competente não é a grande marca da avaliação em geral? No princípio, no meio e no fim do processo, dentro da avaliação formativa que pretende formar o cidadão competente, na parte e no todo?
6. «As competências não devem ser apresentadas como categoria que engloba todos os objectivos de aprendizagem, devendo estes ser claramente decompostos em conhecimentos e capacidades» – mas é evidente que, na planificação da actividade docente, os professores jamais poderiam perder de vista os conhecimentos implicados nos conteúdos programáticos e o desenvolvimento das capacidades dos alunos.
7. «Os conhecimentos e a sua aquisição têm valor em si, independentemente de serem mobilizados para a aplicação imediata» – eis a concepção bancária da educação: depositar sem mobilizar. E por que não, mobilizar para que o conhecimento activo passe a passivo, mas pronto a ser mobilizado, porque está percebido e aplicado?
8. O fel cratiano: «Em síntese, o referido documento aderiu a versões extremas de algumas orientações pedagógicas datadas e não fundamentadas cientificamente. E fê-lo pretendendo impor essas visões como orientadoras oficiais de toda a aprendizagem.Sendo verdade que cabe às instituições oficiais ter em consideração a experiência educativa e os conhecimentos científicos relevantes para o ensino, também é verdade que não lhes cabe impor às escolas e aos professores orientações pedagógicas extremas, nem o currículo se deve tornar um veículo para a imposição do experimentalismo pedagógico».
Despejando o bebé com a água do banho, que está a fazer o legislador senão experimentalismo pedagógico, partindo do princípio errado de que os professores conhecem bem o ensino tradicional e a pedagogia por objectivos? Vai formar de novo os professores nas velhas escolas? Vai ressuscitá-las?
9. Tantos anos se levou a destronar o isolacionismo do professor/ rei absoluto da sua aula para o bem e para o mal – mais para o mal do que para o bem: «O currículo nacional deve definir os conhecimentos e as capacidades essenciais que todos os alunos devem adquirir e permitir aos professores decidir como ensinar de forma mais eficaz, gerindo o currículo e organizando da melhor forma a sua actividade lectiva. Assim, deverá dar-se aos professores uma maior liberdade profissional sobre a forma como organizam e ensinam o currículo».
Atenção: Não é à escola que se dá a liberdade de optar pelas linhas de coerência pedagógica, é a cada professor. E viva a democracia anárquica. Cada um faz o que quer, tendo na devida conta a sua avaliação que dependerá também da avaliação dos alunos. O único controlo definido é o da avaliação sumativa de todos: «Em paralelo, deverá ser feita uma avaliação mais rigorosa sobre o resultado do seu trabalho e do da escola, primordialmente através da avaliação dos conhecimentos adquiridos pelos alunos»
10. E mata-se o «ensino-aprendizagem»,. para que viva a «instrução» (era assim que em 1950 se chamava ao 1ºciclo do ensino básico: «instrução primária») – «O currículo deverá incidir sobre conteúdos temáticos, destacando o conhecimento essencial e a compreensão da realidade que permita aos alunos tomarem o seu lugar como membros instruídos da sociedade. É decisivo que, no futuro, não se desvie a atenção dos elementos essenciais, isto é, os conteúdos, e que estes se centrem nos aspectos fundamentais. Desta forma, o desenvolvimento do ensino em cada disciplina curricular será referenciado pelos objectivos curriculares e conteúdos de cada programa oficial e pelas metas de aprendizagem de cada disciplina».

Eis a vitória do programa televisivo «Pano Inclinado». Muitos professores festejam a chegada da libertação. Cuidado! Negar a pedagogia (vinda dos antigos gregos) é próprio das ditaduras, ditas sem ideologia.

Maria José Domingues


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Sá de Miranda: «Comigo me desavim»



Sá de Miranda: Comigo me desavim [1]

«Sem Miranda não tínhamos um Bernardes; sem Miranda não havia um Ferreira, um Caminha; sem Miranda não florescia um Camões» - Carolina Michaëlis de Vasconcelos.

Sá de Miranda: Comigo me desavim
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
de Francisco Sá de Miranda
(1481-1558) 
Dentro do tema quinhentista «imigo de si», estas trovas em medida velha exprimem o conflito interior da discrepância do eu poético consigo mesmo, sem fuga possível. O paradoxo consiste na coabitação do eu duplicado e discordante. Dentro do eu poético, o eu e o outro eu conflituam em desacordo e inimizade sem solução.
O mesmo tema é trabalhado por muitos poetas tornando-se um tema que atravessa os tempos, desde Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e Camões, até Alexandre O’Neil, Jorge de Sena, Vasco Graça Moura e Maria Teresa Horta, entre outros.
Ouçamos Alexandre O’Neil (1924-86) cruzando ironicamente dois poemas de poetas de tempos bem distantes entre si - Sá de Miranda com o poema acima citado e Mário de Sá Carneiro (1890-1916) com o poema 7, em Indícios de Oiro (7 / Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: /     Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro. )

Sá de Miranda Carneiro de Alexandre O’Neil

comigo me desavim
eu não sou eu nem sou o outro

sou posto em todo perigo
sou qualquer coisa de intermédio

não posso viver comigo
pilar de ponte de tédio

não posso viver sem mim
que vai de mim para o Outro


Ao gosto das cantigas de amigo e dentro da temática mirandina, Maria Teresa Horta cria o poema com um sujeito lírico feminino dividido interiormente entre ser senhora de si ou ser senhora de outro. Exprime-se o conflito da autonomia da mulher no silêncio da incompreensão geral e, em simultâneo, a rebeldia da publicação desse conflito. Em 1974, a obra que contém o poema abaixo citado adota o seu título:
Minha senhora de mim de Maria Teresa Horta
Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
Minha Senhora de Mim, Editorial Futura, 1974 - Lisboa, Portugal.


[1] Este trabalho tem por base textual «”Comigo me desavim”, “Minha senhora de mim” e Minha senhora de quê”» de Sérgio Guimarães de Sousa, in Estética e Ética em Sá de Miranda, Opera Omina, 2011.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Regresso de Saramago: uma rosa para Pilar

Regressam as cinzas, pois o espírito estará sempre com os seus leitores, aqui ou noutro lugar do mundo.
Ler Saramago é sempre encetar uma viagem difícil, por isso, muitos desistem. O narrador saramaguiano não dá tréguas ao pensamento e à reflexão. Tudo tem o seu quê, mesmo a expressão mais banal.Vira-a do avesso, espreme-a e a ironia discursiva faz despertar um sorriso e a vontade de falar com alguém acerca do assunto.
Estudar uma obra de Saramago aumenta o deleite do leitor pelo que o texto revela do universo humano, sobressaindo a valorização do povo que ele tão bem conhece e tão bem dá a conhecer de uma forma dinâmica e mágica. E recordo a figura da jovem Maria com a tigela da terra que brilha nas mãos, em o Evangelho segundo Jesus Cristo. 
Saliente-se a beleza do discurso amoroso, em obras como o Memorial do Convento, para o par Blimunda e Sete-Sóis, e o Cerco de Lisboa, para o par Maria Sara e o revisor. O valor simbólico daquela rosa de amor que circula entre as duas últimas personagens referidas colheu-o Pilar Del Rio,aquela que muito ama e muito foi amada. Para ela irá sempre essa rosa.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A arte: «uma oferenda da consciência ao ser humano»


Continuando a ler e a reflectir sobre as palavras de António Damásio em O Livro da Consciência, partilho, neste texto, citações acerca da cultura e da arte.

  • «A biologia e a cultura são interactivas».
  • «Em última análise, como a arte está profundamente enraizada na biologia e no corpo humano mas pode elevar os seres humanos às mais altas cumeadas do pensamento e do sentimento, as artes tornaram-se numa via para o refinamento homeostático que os seres humanos acabaram por idealizar e ansiaram por alcançar, o equivalente biológico de uma dimensão espiritual nas questões humanas».
  • «Em resumo, a arte prevaleceu na evolução porque teve valor para a sobrevivência e porque contribuiu para o desenvolvimento do conceito de bem-estar». 
  • A arte «ajudou a consolidar grupos sociais e a promover a organização social»; 
  • A arte «apoiou a comunicação»; 
  • A arte «compensou os desequilíbrios emocionais causados pelo medo, pela raiva,, pelo desejo e pela mágoa»;
  • A arte «provavelmente abriu as portas ao longo processo de estabelecimento de memórias externas da vida cultural».
  • A arte «é uma das mais espantosas oferendas da consciência aos seres humanos».

quarta-feira, 16 de março de 2011

Lendo ANTÓNIO DAMÁSIO: "o inconsciente genómico"

 A NARRATIVA E O INCONSCIENTE GENÓMICO

Sempre me interroguei sobre a origem do denominador comum das narrativas fundacionais da literatura, ao ler a Bíblia, os poemas homéricos, as Mil e uma Noites, as lendas e narrativas medievais, as recolhas dos contos populares, etc.
A vontade humana de narrar ao longo dos tempos revela um emissor (colectivo ou singular) consciente do valor da perpetuação da memória de uma colectividade que não se quer perdida e um receptor colectivo atento e capaz de transmitir a mensagem.
Para além disso, o que me parece unir as referidas narrativas seria o comportamento humano despoletado pelos sentimentos do amor e do ódio atravessados pelo sofrimento e pelo medo e pelos seus contrários. Esses sentimentos e as respectivas emoções associadas poderiam ser considerados as traves da estruturação das acções arquitectadas discursivamente entre tensões e equilíbrios, na narrativa universal.
A leitura de O Livro da Consciência   aclara o tal denominador comum quando Damásio escreve que as narrativas  «giram, em grande medida, em torno da força dos programas emocionais inspirados pelo genoma» e esclarece que «o inconsciente genómico é em parte responsável pela uniformidade que marca  uma grande parte do reportório de comportamentos humanos».