domingo, 28 de novembro de 2010

A SINFONIA de Fernando Pessoa e António Damásio




 Celebra-se, a 30 de Novembro, setenta e cinco anos da morte de Fernando Pessoa. Contudo, podemos afirmar que a sua palavra nunca esteve tão viva.  Ele sabia no seu presente que o futuro  lhe pertenceria e assim aconteceu de Portugal ao Japão, em a sua "nova renascença portuguesa". Neste ano de 2010, já pudemos ver o Filme do Desassossego de João Botelho e ler O Livro da Consciência de António Damásio com epígrafe pessoana de grande importância no decurso da obra. Ei-la:

«Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas,  timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia» (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).


 A sinfonia consciente pessoana vai ser explicada cientificamente por Damásio ao longo da sua obra. Seleccionei as seguintes frases, por estarem directamente ligadas à tal sinfonia: 

«O eu e a consciência não acontecem numa só área, região ou centro de cérebro». 
«A mente consciente resulta da articulação fluída entre vários locais do cérebro». 
«O derradeiro produto da consciência ocorre a partir desses inúmeros locais cerebrais funcionando ao mesmo tempo».
 «Não ocorre num local único e assim se assemelha à execução de uma peça sinfónica, que não resulta do trabalho de um único músico, nem de uma só secção de uma orquestra». 

E o maestro? - pergunta-se. E Damásio responde: À medida que a performance se vai desenrolando, surge o maestro da orquestra, não antes. «Para todos os efeitos temos agora um maestro a orientar a orquestra, embora tenha sido o desempenho a criar o maestro - o eu - e não o contrário. O maestro é uma construção dos sentimentos e de um dispositivo da narrativa cerebral, embora esse facto não faça com que o maestro seja menos real». 

«A construção de uma mente capaz de englobar o passado que já vivemos e o futuro que antecipamos, bem como a vida de outros indivíduos que conhecemos, sem falar na capacidade de reflexão, assemelha-se à execução de uma sinfonia de proporções mahlerianas».
Convergentes na sinfonia da consciência, talvez pudessem convergir no conceito damasiano «de um grande colectivo de vontades [das nossas células] expressas através de uma única voz [...] sob a forma do eu num cérebro consciente». 
Em Pessoa, esse eu foi capaz de criar novos eus poéticos com voz própria, os seus heterónimos, com os quais não se confunde, pois eles tocam na  orquestra e  o seu eu é o maestro.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Coaching - a pedagogia empresarial

«Coaching: o triunfo do saber ser» (in semanário Expresso de 13 de Novembro de 2010)

O triunfo do saber ser alegra-me profundamente. Se aplicado ao mundo empresarial, redobra a minha alegria. Tentámos fazer isso na escola e chamaram-nos depreciativamente românticos. Talvez  com o palavrão inglês à cabeça funcione melhor: coaching (ouvem-se as rãs , a paisagem é idílica).
A palavra inglesa é derivada de coach que significa  nesta pedagogia «o líder inspiracional» apoiado na teoria socrática de que tudo está em nós e, por isso, «conhece-te a ti mesmo», para desenvolver todas as potencialidades do ser.
Lê-se no referido semanário que «o primado empresarial de saber fazer deu lugar ao saber ser». E que o boom em Portugal se dera em 2005. Quem deu por isso? Já percebi, a especialista explica: «o coaching ainda é visto como uma metodologia de elite», por isso, ninguém se apercebeu. Ok.
Mudança de mentalidades, eis o que se pretende coachando: «o grande desafio das empresas é, hoje, desenvolver o seu capital humano nas questões ligadas ao relacionamento interpessoal e emocional». Quem acredita que tal pedagogia se faça no mundo empresarial português?
«A atitude coach, dimensão verdadeiramente transversal relacionada com o saber ser, representa uma forma inovadora de estar na vida pessoal, profissional e social, na medida em que permite níveis superiores de realização, bem-estar e equilíbrio». Maravilhoso, não é? A inteligência emocional e o velho Karl Rogers à colação. Quem sabe se o querido Paulo Freire não visitará  em espírito universal os coachs?
Funções do coach («o líder inspiracional»):
  • «Ajudar o colaborador a aprender e a perceber as áreas em que o seu potencial de desenvolvimento é maior.
  • Estimulá-lo a desenvolver a sua inteligência emocional e a tirar o melhor dela em termos profissionais.
  • Apoiá-lo a explorar e a definir as suas metas, a tomar opções,  a lidar e analisar os erros, as suas causas e raízes e as formas de os resolver e ultrapassar.
  • Facultar pistas ao colaborador para que ele possa encontrar o seu rumo na organização e superar-se a si próprio.
  • Transmitir desafios concretizáveis, bem como sentimentos de segurança.
  • Estimular a proactividade e o orgulho da pertença à organização e à equipa em que está integrado.
  • Promover o reconhecimento do mérito e impelir o colaborador a utilizar todo o seu potencial ao serviço da empresa.
  •      Ajudar a estimular a independência e autonomia do colaborador, bem como a sua competência, empenho, dinamismo, proactividade e capacidade de inovação».

Vejam isto aplicado à formação de professores e ao ensino em geral e a todos os profissionais e a toda a gente. Finalmente o idealismo de uma sociedade melhor vai acontecer.   

Os doutores da praça do tipo Nuno Crato e Medina Carreira já estarão ao par? O romantismo da educação que tanto criticam terá entrado no mundo empresarial?

Produtos românticos? Nós todos.

Exemplo de um texto coach retirado da internet:
«Portugal: onde o Coaching se faz há seculos - 2010-04-23 14:25:15
É típico e sobejamente conhecido, que os portugueses, em termos gerais, têm uma certa tendência para a “pequenez” e falta de auto-estima, que os leva muitas vezes a permanecerem na sua zona de conforto. Essa atitude de resignação, impede o nosso povo de alcançar maior confiança que lhe permita desenvolver objectivos ambiciosos. Enquanto “homem do coaching” estou habituado a olhar para o presente e futuro e, raramente para o passado; contudo, penso que, neste caso, devemos reflectir um pouco sobre um passado que, embora longínquo, pode dar-nos algumas bases para reflectir... refiro-me à época dos Descobrimentos.
Deste período podemos encontrar a inspiração que tantas vezes nos falta, se pensarmos que aquilo que os Portugueses fizeram, não foi mais nem menos do que ultrapassar continuamente os seus limites e crenças. Até um certo momento olhava-se para o Cabo Bojador como intransponível mas o espírito de querer sempre ir mais além fez de Gil Eanes o responsável pela queda de velhos mitos medievais, abrindo caminho para os Grandes Descobrimentos. Mais tarde, coube a Bartolomeu Dias o feito de, uma vez mais, ultrapassar os limites à altura convencionados, ao conseguiu dobrar o Cabo situado na ponta sul do continente africano. Este feito contribuiu para uma clara mudança do paradigma, fazendo com que o então Cabo das Tormentas, passasse a designar-se por Cabo da Boa Esperança. Estava então aberto um novo horizonte e, com ele, novas oportunidades de expansão e desenvolvimento.
Homens como Gil Eanes, Bartolomeu Dias ou o Infante D. Henrique foram, na minha modesta opinião, os primeiros grandes Coaches do nosso país. Eles conseguiram mobilizar recursos e motivar pessoas para ir mais além, para quebrar medos e crenças, levando-os a superarem-se, criando no Portugal de então um sentimento de grandeza e de permanente vontade de “dar novos mundos ao mundo”.
Por outro lado, podemos afirmar que, salvo pequenas excepções, os portugueses conseguiam criar fácil empatia com os outros povos e ser bem aceites. O sucesso da expansão portuguesa pelo mundo deveu-se, em muito, a esta sensibilidade para os aspectos relacionais que ainda hoje nos caracteriza. E esta é, para mim, uma das características mais importantes que deve estar presente naqueles que pretendem desenvolver projectos e... Pessoas!
Ainda hoje os portugueses são vistos pelos estrangeiros como o povo que sabe receber, cria envolvência e desperta Emoções!.. E esta é, porventura, uma das nossas maiores virtudes... de uma ou outra forma, temos a natural capacidade de desenvolver e aplicar a inteligência emocional com relativa facilidade. O sucesso de portugueses como José Mourinho (entre outros) está, sem dúvida, relacionado com o Emocional. Se considerarmos que na origem da palavra “Emoção” está o termo que vem do latim “motus” (movimento), podemos entender melhor que as emoções são o grande motor para que algo aconteça e se mova...
Nas formações do IICD as pessoas percebem a real importância deste aspecto e ficam habilitadas a saber gerir melhor essas emoções no sentido de um sucesso pessoal e profissional...
Sérgio Guerreiro
Director Executivo/Coach (BizPoint)»

OK! E onde é que os navegadores nos levaram? À colonização exploradora, ao saudosismo e ainda não ao projectismo futurológico. Talvez agora lá cheguemos de coach.

domingo, 31 de outubro de 2010

ESCOLA E DEMOCRACIA





 Citando da entrevista de Fernando Savater, no caderno Actual do semanário Expresso de 30 de Outubro:
  • Como a sociedade democrática deve ser laica, não há razão que justifique a presença da religião na escola pública. A religião é um assunto privado, que deve ficar na sinagoga, na paróquia, na mesquita.
  • A escola não é democrática. Nem deve sê-lo. A escola é uma preparação para a democracia. Uma aula é hierárquica. O professor está sempre acima do aluno. A escola deve estar a preparar alunos para ser cidadãos. A escola não tem mecanismos da democracia nem deve tê-los.
  •  A escola sempre viveu em crise. Os professores foram educados no passado e têm de educar para o futuro. Essa crise é a da sociedade.
  • Ora, se o professor tem tanta autoridade como o aluno a aula não funciona.
  • Toda a gente aceita que um treinador dê ordens aos seus jogadores. Já o mesmo modelo numa escola parece que começou a ser (erradamente) entendido como algo escandaloso.
  • Há que elevar o nível médio de conhecimento para que todos possam intervir com competência.
  • Os políticos somos todos nós. Somos nós que os elegemos. Os políticos não são seres de outro planeta que desceram à terra para nos dificultar a vida.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Rómulo de Carvalho: «Em Educação está sempre tudo mal?»


Sou seguidora do blog "De rerum natura" e achei muito interessantes as reflexões de Rómulo de Carvalho, depois do seu estudo sobre a educação em Portugal, respondendo ao porquê do sentir que, em educação, está sempre tudo mal.
http://dererummundi.blogspot.com/2010/08/educacao-esta-sempre-mal.html
«Novo texto recebido de António Piedade:
[…]
A páginas tantas, o Professor Rómulo de Carvalho disse-nos que tinha estudado a Educação em Portugal, desde o início da nacionalidade portuguesa até ao fim do regime Salazar-Caetano, e que dessa investigação iria a Fundação Calouste Gulbenkian publicar (o que aconteceu em 1986 - ) uma obra inédita em múltiplos sentidos: nunca ninguém antes, quer fosse ou não historiador, tinha levado a cabo tamanha tarefa; nunca ninguém antes, quer fosse ou não especialista em educação, tinha ousado analisar criticamente e com o distanciamento necessário ao bom juízo, "o conhecimento histórico sobre o modo como o ensino foi ministrado e os respectivos resultados da educação"; nunca ninguém antes em Portugal tinha ido à procura da razão histórica dos seus próprios alicerces educativos, no sentido de traçar denominadores comuns e específicos ao contexto do país em cada época. Era estranho, disse-nos ele, que os reformadores não tivessem uma mínima curiosidade sobre as lições que estavam por retirar dos diversos modelos de educação aplicados ao longo da história Lusa.
Rómulo de Carvalho fez-nos então nessa tarde de Verão refrescada com limonada caseira, um comentário que ainda hoje recordo: ao longo da história da educação em Portugal encontramos uma constante referência à queixa de que a educação nunca estivera tão mal como então. Em cada época, repetia-se a sensação de insatisfação com o estado da Educação.
[…]
E, segundo ele, haveria sempre um desfasamento de cerca de uma década, entre o reconhecimento de um dado conhecimento e da utilidade social da sua transmissão às novas gerações através da escola: tempo para o compreender e encontrar a forma de o transmitir; tempo para o ensinar aos que o iriam ensinar; tempo para formar os que no terreno cumpriam o papel mais nobre da Escola que é o de assegurar a minimização de erros na sociedade.
Agora, se a este desfasamento adicionarmos mais experimentações de novos modelos de ensino e de avaliação do saber supostamente transmitido e adquirido, sem o seguro conhecimento das especificidades e das necessidades de um País alfabeticamente empobrecido, então talvez o atraso no estabelecimento de uma cultura científica democrática, necessária a todos os cidadãos, sem excepção, numa sociedade de base tecnológica como é a nossa, não se medirá em décadas e a medida padrão de atraso mais adequada tenda para o "quartel".

Mas afinal, será próprio da Educação este estar sempre mal?»

 

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Homenagem a José Saramago

«Lisboa estava ganha, perdera-se Lisboa. após a rendição do castelo, estancou-se a sangueira. Porém, quando o sol descendo para o mar, tocou o nítido horizonte, ouviu-se a voz do almuadem da mesquita maior clamando pela última vez lá do alto, onde se refugiara, Allahu akbar. Arrepiaram-se as  carnes dos mouros à chamada de Alá, mas o apelo não chegou ao fim porque um soldado cristão de mais zelosa fé [...] subiu correndo à almádena e de um só golpe de espada degolou o velho, em cujos olhos cegos uma luz relampejou no momento de apagar-se-lhe a vida. [...]
[...] Acabaste e ele respondeu, Sim, acabei, Queres dizer-me como termina, Com a morte do almuadem, [...]. A cabeça de Maria Sara descansa no ombro de Raimundo, com a mão esquerda ele acaricia-lhe o cabelo e a face. Não adormeceram logo. Sob o alpendre da varanda respirava uma sombra.»

(Final de O Cerco de Lisboa de José Saramago)

domingo, 20 de junho de 2010

EPITÁFIO DE JOSÉ SARAMAGO

Partiu em Junho, o mês de Luís de Camões e de Fernando Pessoa. E, a partir de agora, o mês de José Saramago.

A 10, celebra-se Luís de Camões (1525 (?)- 1580)

«No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Du(m)a austera, apagada e vil tristeza.»
(Os Lusíadas, estância 145.)

A 13, Fernando Pessoa (13/ 06/1888 - 30/11/1935)

«Eras sobre eras se somem
No tempo que em  eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!»
(Mensagem, in «O Quinto Império».)



A 18, José Saramago (16/11/1922 - 18/06/2010)
«Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor,
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz dum corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.»
(Colóquio/Letras, n.º151/152, p.25.)

Que inúmeros cérebros devorem a vossa Obra imortal!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Porque é que a Terra anda em volta do Sol?

 (lendo Mundos Paralelos de Michio Kaku)


Todo o mundo é um palco
E todos os homens e mulheres são meros actores,
Todos entram e saem.

Shakespeare (1564-1616) metaforizou desse modo o mundo.
Newton ( 1643-1727) «concebia o espaço e o tempo como uma vasta arena vazia onde os eventos podiam ocorrer, de acordo com as suas leis do movimento. O palco estava cheio de maravilhas e de mistérios, mas era essencialmente inerte e desprovido de movimento, assistindo passivamente à mudança da natureza».
Einstein revolucionou a ideia de palco, transformando o próprio palco numa parte importante da vida. O espaço e o tempo não eram uma arena estática, mas dinâmica, inclinando-se e curvando-se de formas estranhas. Em vez de palco, uma rede de circo, sugere Kaku, onde os actores caem suavemente sob o próprio peso.
Há uma imagem de Michio Kaku, bem mais explícita: uma bola de bowling a afundar-se suavemente num colchão, um berlinde que se atira para a superfície abaulada do colchão. Observa-se, então, que o berlinde percorrerá uma trajectória curva, orbitando em torno da bola de bowling. «É óbvio que não existe nenhuma força. Há apenas uma inclinação no colchão, que obriga o berlinde a mexer-se numa linha curva». Depois, Kaku desfaz a metáfora: o berlinde representa a Terra; a bola de bowling, o Sol; o colchão, o espaço-tempo. E apresenta a conclusão: a Terra  move-se em volta do Sol «não devido à atracção da gravidade, mas porque o Sol deforma o espaço em redor da Terra, criando um impulso que obriga a Terra a mover-se num círculo». «A gravidade não atrai; o espaço empurra». «Nesta nova e surpreendente representação, a gravidade não era uma força independente que preenchesse o Universo, mas o efeito aparente da curvatura da estrutura do espaço-tempo. [...] Nesta brilhante teoria, a curvatura de espaço-tempo era determinada pela matéria e energia que continha», à semelhança  do que acontece quando se atira uma pedra  ao lago,  gerando uma série de ondas que se propagam: quanto maior for a pedra  maior será a deformação da superfície do lago.Assim, «quanto maior for a estrela, maior será a curvatura do espaço-tempo à sua volta».