terça-feira, 17 de agosto de 2010

Rómulo de Carvalho: «Em Educação está sempre tudo mal?»


Sou seguidora do blog "De rerum natura" e achei muito interessantes as reflexões de Rómulo de Carvalho, depois do seu estudo sobre a educação em Portugal, respondendo ao porquê do sentir que, em educação, está sempre tudo mal.
http://dererummundi.blogspot.com/2010/08/educacao-esta-sempre-mal.html
«Novo texto recebido de António Piedade:
[…]
A páginas tantas, o Professor Rómulo de Carvalho disse-nos que tinha estudado a Educação em Portugal, desde o início da nacionalidade portuguesa até ao fim do regime Salazar-Caetano, e que dessa investigação iria a Fundação Calouste Gulbenkian publicar (o que aconteceu em 1986 - ) uma obra inédita em múltiplos sentidos: nunca ninguém antes, quer fosse ou não historiador, tinha levado a cabo tamanha tarefa; nunca ninguém antes, quer fosse ou não especialista em educação, tinha ousado analisar criticamente e com o distanciamento necessário ao bom juízo, "o conhecimento histórico sobre o modo como o ensino foi ministrado e os respectivos resultados da educação"; nunca ninguém antes em Portugal tinha ido à procura da razão histórica dos seus próprios alicerces educativos, no sentido de traçar denominadores comuns e específicos ao contexto do país em cada época. Era estranho, disse-nos ele, que os reformadores não tivessem uma mínima curiosidade sobre as lições que estavam por retirar dos diversos modelos de educação aplicados ao longo da história Lusa.
Rómulo de Carvalho fez-nos então nessa tarde de Verão refrescada com limonada caseira, um comentário que ainda hoje recordo: ao longo da história da educação em Portugal encontramos uma constante referência à queixa de que a educação nunca estivera tão mal como então. Em cada época, repetia-se a sensação de insatisfação com o estado da Educação.
[…]
E, segundo ele, haveria sempre um desfasamento de cerca de uma década, entre o reconhecimento de um dado conhecimento e da utilidade social da sua transmissão às novas gerações através da escola: tempo para o compreender e encontrar a forma de o transmitir; tempo para o ensinar aos que o iriam ensinar; tempo para formar os que no terreno cumpriam o papel mais nobre da Escola que é o de assegurar a minimização de erros na sociedade.
Agora, se a este desfasamento adicionarmos mais experimentações de novos modelos de ensino e de avaliação do saber supostamente transmitido e adquirido, sem o seguro conhecimento das especificidades e das necessidades de um País alfabeticamente empobrecido, então talvez o atraso no estabelecimento de uma cultura científica democrática, necessária a todos os cidadãos, sem excepção, numa sociedade de base tecnológica como é a nossa, não se medirá em décadas e a medida padrão de atraso mais adequada tenda para o "quartel".

Mas afinal, será próprio da Educação este estar sempre mal?»

 

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Homenagem a José Saramago

«Lisboa estava ganha, perdera-se Lisboa. após a rendição do castelo, estancou-se a sangueira. Porém, quando o sol descendo para o mar, tocou o nítido horizonte, ouviu-se a voz do almuadem da mesquita maior clamando pela última vez lá do alto, onde se refugiara, Allahu akbar. Arrepiaram-se as  carnes dos mouros à chamada de Alá, mas o apelo não chegou ao fim porque um soldado cristão de mais zelosa fé [...] subiu correndo à almádena e de um só golpe de espada degolou o velho, em cujos olhos cegos uma luz relampejou no momento de apagar-se-lhe a vida. [...]
[...] Acabaste e ele respondeu, Sim, acabei, Queres dizer-me como termina, Com a morte do almuadem, [...]. A cabeça de Maria Sara descansa no ombro de Raimundo, com a mão esquerda ele acaricia-lhe o cabelo e a face. Não adormeceram logo. Sob o alpendre da varanda respirava uma sombra.»

(Final de O Cerco de Lisboa de José Saramago)

domingo, 20 de junho de 2010

EPITÁFIO DE JOSÉ SARAMAGO

Partiu em Junho, o mês de Luís de Camões e de Fernando Pessoa. E, a partir de agora, o mês de José Saramago.

A 10, celebra-se Luís de Camões (1525 (?)- 1580)

«No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Du(m)a austera, apagada e vil tristeza.»
(Os Lusíadas, estância 145.)

A 13, Fernando Pessoa (13/ 06/1888 - 30/11/1935)

«Eras sobre eras se somem
No tempo que em  eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!»
(Mensagem, in «O Quinto Império».)



A 18, José Saramago (16/11/1922 - 18/06/2010)
«Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor,
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz dum corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.»
(Colóquio/Letras, n.º151/152, p.25.)

Que inúmeros cérebros devorem a vossa Obra imortal!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Porque é que a Terra anda em volta do Sol?

 (lendo Mundos Paralelos de Michio Kaku)


Todo o mundo é um palco
E todos os homens e mulheres são meros actores,
Todos entram e saem.

Shakespeare (1564-1616) metaforizou desse modo o mundo.
Newton ( 1643-1727) «concebia o espaço e o tempo como uma vasta arena vazia onde os eventos podiam ocorrer, de acordo com as suas leis do movimento. O palco estava cheio de maravilhas e de mistérios, mas era essencialmente inerte e desprovido de movimento, assistindo passivamente à mudança da natureza».
Einstein revolucionou a ideia de palco, transformando o próprio palco numa parte importante da vida. O espaço e o tempo não eram uma arena estática, mas dinâmica, inclinando-se e curvando-se de formas estranhas. Em vez de palco, uma rede de circo, sugere Kaku, onde os actores caem suavemente sob o próprio peso.
Há uma imagem de Michio Kaku, bem mais explícita: uma bola de bowling a afundar-se suavemente num colchão, um berlinde que se atira para a superfície abaulada do colchão. Observa-se, então, que o berlinde percorrerá uma trajectória curva, orbitando em torno da bola de bowling. «É óbvio que não existe nenhuma força. Há apenas uma inclinação no colchão, que obriga o berlinde a mexer-se numa linha curva». Depois, Kaku desfaz a metáfora: o berlinde representa a Terra; a bola de bowling, o Sol; o colchão, o espaço-tempo. E apresenta a conclusão: a Terra  move-se em volta do Sol «não devido à atracção da gravidade, mas porque o Sol deforma o espaço em redor da Terra, criando um impulso que obriga a Terra a mover-se num círculo». «A gravidade não atrai; o espaço empurra». «Nesta nova e surpreendente representação, a gravidade não era uma força independente que preenchesse o Universo, mas o efeito aparente da curvatura da estrutura do espaço-tempo. [...] Nesta brilhante teoria, a curvatura de espaço-tempo era determinada pela matéria e energia que continha», à semelhança  do que acontece quando se atira uma pedra  ao lago,  gerando uma série de ondas que se propagam: quanto maior for a pedra  maior será a deformação da superfície do lago.Assim, «quanto maior for a estrela, maior será a curvatura do espaço-tempo à sua volta».

sábado, 5 de junho de 2010

Estado Social - a destruição

Reciclando o Expresso:
«O CAMINHO PARA A SERVIDÃO» (Daniel Oliveira): a destruição do Estado Social em curso.
  1. O autor valoriza o Estado Social pela libertação de cada indivíduo, face à família ( capaz de exercer o seu poder até à excisão feminina), face ao patronato, face à religião, etc. Regista-se a frase: «Através do Estado Social, construímos, na segunda metade do século XX, as sociedades mais livres da História».
    Para além do artigo:
    Acrescenta-se que, num primeiro momento da crise internacional, percepcionou-se o Estado Social como o possível salvador, para paulatinamente se ir verificando que ele próprio estava a ser posto em causa. Uma certeza parece existir: o dinheiro em dinamismo é o salvador. Mas, sendo ele uma invenção do homem, não poderá ser reciclado e transformado em algo mais interessante para o ser humano? Esse jogo já foi jogado até à exaustão, não poderá criar-se um outro?
  2. Do mesmo autor, regista-se «a união nacional da opinião», em «Ditadura de opinião», por se concordar com o teor da expressão crítica.
    Para além do artigo:
    O unanimismo opinioso tipo ralhete Medina Carreira (sublinhado pelo sorriso concordato de Mário Crespo e pela palmatória de Nuno Crato) e a verrina anti-socrática dominam a comunicação social e os emails em série. Somos mesmo bons na escola tradicional a dar lições sentenciosas aos outros e a pôr-lhes orelhas de burro! Falta sempre quem (olhando para os outros, mas também para si próprio) se consiga superar e surja com soluções para os problemas e se apresente com vontade de os resolver, na certeza de que todos contribuímos, mais ou menos, para a crise existente, como bons consumidores. E a sociedade capitalista baseia-se em quê? Pois, no consumo. E viva o paradoxo. E podemos regular um paradoxo?

segunda-feira, 31 de maio de 2010

«O século XX português é uma história de sucesso»


(reciclagem do semanário Expresso)
 

Depois de folhear o primeiro caderno, a selecção recaiu no artigo de Henrique Raposo: «O meu avô, o meu pai, e eu». É um prazer cerebral ler uma frase assim: «O século XX português é uma história de sucesso, meus amigos». Atrás da orelha do leitor habituado ao jornalismo da desgraça, a pulga começa a comichar: Então porquê, Henrique?

Muitas vezes, penso que nasci na Idade Média ( em 1944), mas o avô, visto pelo neto Henrique, avança para as invasões francesas para regredir para a o Alentejo Mauritânia. Enfim, concluo que estamos de acordo: Idade Média, mais ou menos.

O retrato dessa época aparece condensado na frase: «o terceiro mundo estava ali estacionado». É mesmo assim que eu vejo a minha aldeia minhota com os seus poucos habitantes: parada na rotina diária e social. E Deus no céu e Salazar na terra governavam o pequeno mundo imutável. E nenhum deles queria mudança. E o mundo era o palco medieval, no qual os actores se mexiam para actuar de acordo com a cartillha. E foi mais de meio século assim.

Contudo, aquele avô analfabeto e esforçado, como tantos outros, arregaçou as mangas e ajudou a construir um mundo que permitiu ao seu filho ir à escola e avançar como empresário até ao «hall do primeiro mundo», onde o Henrique nasceu e cresceu, sendo hoje o «cronista benjamim do maior jornal do país». Parabéns.
Mas isso não quer dizer que o século XX tenha sido um século de sucesso nacional.Nem todas as histórias de esforço parental foram assim tão bem sucedidas. Porém, a revolução sócio-cultural aconteceu e está em curso.

sábado, 29 de maio de 2010

«EINSTEIN, O REBELDE» (lendo Mundos Paralelos de Michio Kaku)

1. O aparente insucesso escolar de Einstein: «Os professores não gostavam deste estudante com pouca vergonha e convencido que, frequentemente, faltava às aulas».
2. A dificuldade de arranjar emprego: Depois de ter acabado o curso no Instituto Politécnico de Zurique, em 1900, encontrou-se desesperadamente desempregado. «Considerava-se um falhado e um doloroso peso financeiro para os pais»; o pai morreu «convencido de que o seu filho era um falhado».
3. O primeiro emprego: «modesto funcionário no registo de Patentes da Suíça em Berna», emprego conseguido a custo, porque um colega seu «mexeu uns cordelinhos».
4. O valor da leitura: «Na sua infância, Einstein tinha lido um livro de Aaron Bernstein, People's Book on Natural Science, " um trabalho que li com ansiosa atenção", recordará ele. Bernstein pedia ao leitor que imaginasse que percorria a electricidade quando ela corria ao longo de um fio do telégrafo». A criança Einstein imaginou que, «se fosse possível correr ao longo de um feixe de luz, ele pareceria congelado como uma onda imóvel».
5. A busca das respostas: Aos 16 anos, perguntou-se "qual seria o aspecto de um feixe de luz, se fosse possível apanhá-lo.Mais tarde, respondeu à questão: «se eu perseguir um feixe de luz com a velocidade c (a velocidade da luz no vácuo), observarei esse raio de luz como um campo electromagnético em repouso que oscila espacialmente».
6. Einstein e as teorias de Newton: «Do mesmo modo que a descoberta de Newton unificou a física da terra com a física dos céus, Einstein unificou o espaço com o tempo. Mas também mostrou que a matéria e a energia estão unificadas e, por conseguinte, podem transformar-se uma na outra».

( KAKU, Michio, 2010, Mundos Paralelos - uma viagem pela criação, dimensões superiores e futuro do cosmos, Lisboa, Editora Bizâncio, pp.50-54).