Caro Pessoa, meu companheiro de alvorada,
Perco-me na tua obra. Leio-a, medito-a e depois espraio meus olhos cansados em textos daqueles que com ela tecem mantas discursivas tão abrangentes que cobrem grande parte do mundo.
Nesse mundo, encontram-se os poetas ingleses, onde tu também habitas.
E Mensagem, o poema hoje celebrado nos seus setenta e cinco anos, o poema lido como nacionalista, é um enigma que eu tento decifrar para além de todas as decifrações já publicadas. Porém, esbarro a cada passo. Neste momento, a parede é Keats e o seu Hyperion. Nessa luta de gigantes, entre velhos e novos deuses, colocaste os portugueses, filhos de deus e do diabo, na sua avançada imperial? Será por isso que o meu espírito, face a Mensagem, ora agarra a ideia do desvendar do segredo da esfinge pelo jovem Édipo, ora o agnus dei imolado por um deus que é pai numa cultura greco-romana-judaico-cristã? Impossível não acreditar que O Encoberto de Sampaio Bruno não passeie por lá, no horror manifestado pela crueldade nacional, bem expressa nos autos-de-fé, contrariando a ideia da “pátria dos brandos costumes”.
E tudo isso e muito mais vagueia na ironia dialógica da tua poesia, em adiamento do desvendar futuro.
Parabéns. Tu conseguiste.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
domingo, 29 de novembro de 2009
30 de Novembro de 1935 - data da morte de Fernando Pessoa
"No princípio era o Verbo. E o Verbo Se fez Homem, e habitou entre nós".
Pode aplicar-se o teor desse discurso de João Evangelista ao Verbo de Fernando Pessoa. Ele quis ser e foi o criador pela palavra. Os seus heterónimos, feitos de palavra materializada em discurso, cá ficaram, bem vivos em obra, a confirmar o poder do criador, equiparado aos deuses.
Como últimas palavras escritas, no dia 29 de Novembro, deixou expresso o desconhecimento do amanhã: "I know not what tomorrow will bring".
Se o amanhã, a curto prazo, lhe trouxe a morte, o amanhã, a longo prazo, trouxe-lhe a imortalidade, hoje celebrada.
Recorde-se o último poema de Alberto Caeiro, o Mestre, "ditado pelo poeta no dia da sua morte":
"É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, para lhe dizer adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada."
Pode aplicar-se o teor desse discurso de João Evangelista ao Verbo de Fernando Pessoa. Ele quis ser e foi o criador pela palavra. Os seus heterónimos, feitos de palavra materializada em discurso, cá ficaram, bem vivos em obra, a confirmar o poder do criador, equiparado aos deuses.
Como últimas palavras escritas, no dia 29 de Novembro, deixou expresso o desconhecimento do amanhã: "I know not what tomorrow will bring".
Se o amanhã, a curto prazo, lhe trouxe a morte, o amanhã, a longo prazo, trouxe-lhe a imortalidade, hoje celebrada.
Recorde-se o último poema de Alberto Caeiro, o Mestre, "ditado pelo poeta no dia da sua morte":
"É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, para lhe dizer adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada."
Notícias da Casa Fernando Pessoa
«Fernando Pessoa: 75 anos de "Mensagem"
No próximo dia 1 de Dezembro assinala-se os 75 anos da publicação da primeira edição de Mensagem de Fernando Pessoa, o único livro de poemas em português que publicou em vida. A Câmara Municipal de Lisboa, a Biblioteca Nacional e a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, promovem uma sessão comemorativa no anfiteatro da BNP, às 17h30m, com a presença de Eduardo Lourenço, Manuel Alegre, Vasco Graça Moura e do actor Luís Lucas. Nessa sessão, a Guimarães Editores, em parceria exclusiva com a FNAC, vai lançar uma edição de Mensagem clonada do dactiloescrito original, que faz hoje parte do espólio da BNP. Essa edição terá venda exclusiva nas lojas Fnac e na Livraria de Arte. Ainda no âmbito do programa da comemoração dos 75 anos de Mensagem vão realizar-se na FNAC do Chiado e na Casa Fernando Pessoa debates moderados por Carlos Vaz Marques, dias 2 e 9 de Dezembro, pelas 18h30m:
Dia 2 “- É a hora!”, O sentido da “Mensagem”: com a presença de Paulo Borges, Manuel Gandra e Miguel Real;
Dia 9 "Mensagem", o Poema, o Prémio e o Estado Novo": com a presença de José Blanco, Richard Zenith e José Carlos Seabra Pereira.»
publicado por CFP às 19:50
«Fernando Pessoa: 75 anos de "Mensagem"
No próximo dia 1 de Dezembro assinala-se os 75 anos da publicação da primeira edição de Mensagem de Fernando Pessoa, o único livro de poemas em português que publicou em vida. A Câmara Municipal de Lisboa, a Biblioteca Nacional e a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, promovem uma sessão comemorativa no anfiteatro da BNP, às 17h30m, com a presença de Eduardo Lourenço, Manuel Alegre, Vasco Graça Moura e do actor Luís Lucas. Nessa sessão, a Guimarães Editores, em parceria exclusiva com a FNAC, vai lançar uma edição de Mensagem clonada do dactiloescrito original, que faz hoje parte do espólio da BNP. Essa edição terá venda exclusiva nas lojas Fnac e na Livraria de Arte. Ainda no âmbito do programa da comemoração dos 75 anos de Mensagem vão realizar-se na FNAC do Chiado e na Casa Fernando Pessoa debates moderados por Carlos Vaz Marques, dias 2 e 9 de Dezembro, pelas 18h30m:
Dia 2 “- É a hora!”, O sentido da “Mensagem”: com a presença de Paulo Borges, Manuel Gandra e Miguel Real;
Dia 9 "Mensagem", o Poema, o Prémio e o Estado Novo": com a presença de José Blanco, Richard Zenith e José Carlos Seabra Pereira.»
publicado por CFP às 19:50
sábado, 28 de novembro de 2009
Homenagem a Fernando Pessoa (13/06/1888- 30/11/1935)
QUASI
Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção...
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem - um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei...
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir.
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Coitadinhos Deuses, assim até se faz a vida!
Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado de papéis meio compostos,
Os outros também sou eu.
Vendedeira de rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em afinal não arrumar
Para a janela por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, acaba no meu cérebro em metafísica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distracção de ouvir apregoando-se,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema.
Como um deus, não arrumei nem a verdade nem a vida.
Álvaro de Campos
(Nota: Os versos começam com letra maiúscula; as palavras ou expressões com minúscula, em início de linha, pertencem ao verso da linha anterior.)
Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção...
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem - um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei...
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir.
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Coitadinhos Deuses, assim até se faz a vida!
Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado de papéis meio compostos,
Os outros também sou eu.
Vendedeira de rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em afinal não arrumar
Para a janela por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, acaba no meu cérebro em metafísica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distracção de ouvir apregoando-se,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema.
Como um deus, não arrumei nem a verdade nem a vida.
Álvaro de Campos
(Nota: Os versos começam com letra maiúscula; as palavras ou expressões com minúscula, em início de linha, pertencem ao verso da linha anterior.)
domingo, 18 de outubro de 2009
O gozo de Marcelo
Palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, no semanário Expresso, de 17 de Outubro de 2009: «A única missão patriótica que me daria gozo seria a Presidência da República».
E viva a leveza do Senhor Professor! Com que então a música é de gozo pessoal? Tange o violino e pede nada mais nada menos do que o maior cargo da nação. Para gozo pessoal ou por gozo pessoal? Portugal inteiro está muito interessado em dar gozo pessoal a Marcelo Rebelo de Sousa. O gozo pessoal do Professor preocupa a nação. Unamo-nos em torno dessa causa gloriosa: o gozo pessoal de Marcelo. Por isso, o zângão voa ao som do violino que geme por um gozo tão desejado. Neste caso, nada mais nada menos, do que o mais elevado cargo da nação: a Presidência da República. E nós, as obreiras, com isso?!
Mas se é certo, como sugere Miguel Veiga, que o PSD, qual zângão, voa apesar de cientificamente não estar apto para isso, com a declaração do Professor ele vai delirar no voo para impedir Marcelo de alcançar o tal gozo pessoal. Para isso, basta escolhê-lo para substituir Manuela Ferreira Leite, certamente, asfixiada pelo excesso de liberdade de vozes no seu partido.
E viva a leveza do Senhor Professor! Com que então a música é de gozo pessoal? Tange o violino e pede nada mais nada menos do que o maior cargo da nação. Para gozo pessoal ou por gozo pessoal? Portugal inteiro está muito interessado em dar gozo pessoal a Marcelo Rebelo de Sousa. O gozo pessoal do Professor preocupa a nação. Unamo-nos em torno dessa causa gloriosa: o gozo pessoal de Marcelo. Por isso, o zângão voa ao som do violino que geme por um gozo tão desejado. Neste caso, nada mais nada menos, do que o mais elevado cargo da nação: a Presidência da República. E nós, as obreiras, com isso?!
Mas se é certo, como sugere Miguel Veiga, que o PSD, qual zângão, voa apesar de cientificamente não estar apto para isso, com a declaração do Professor ele vai delirar no voo para impedir Marcelo de alcançar o tal gozo pessoal. Para isso, basta escolhê-lo para substituir Manuela Ferreira Leite, certamente, asfixiada pelo excesso de liberdade de vozes no seu partido.
O voo do zângão
Do jornal Expresso de 17 de Outubro de 2009, palavras de Miguel Veiga, o histórico PSD do Porto: «o cavaquismo morreu às mãos dos cavaquinhos»; « o PSD é como um zângão. O zângão [...]tem características que o impedem de voar. Mas porque é que voa?».
Certamente, estará dependente da música que o faz voar. E o cavaquinho continua a tocar, ainda que desafinadíssimo por excesso de magreza de ideias e de gordura de corrupção. Outras músicas vão tocando para que ele voe e o desatino do voo do zângão é completo: ele é o violino do Marcelo mais o martelar do bombo do Santana, em ruído de fundo que se arrasta ao longo do tempo; ele é o piano de Aguiar Branco interrompido pelo canto lírico de Rangel ao som de jovem orquestra. Certo é que o zângão continua a voar, desde que lhe dêem música. E essa não falta no PSD. E, quando, por instantes, o silêncio se faz sentir, vale-lhe sempre o trombone do Jardim da Madeira para o despertar e o fazer voar. Ele sabe do que o zângão precisa. E passos de coelho são silenciosos...
Certamente, estará dependente da música que o faz voar. E o cavaquinho continua a tocar, ainda que desafinadíssimo por excesso de magreza de ideias e de gordura de corrupção. Outras músicas vão tocando para que ele voe e o desatino do voo do zângão é completo: ele é o violino do Marcelo mais o martelar do bombo do Santana, em ruído de fundo que se arrasta ao longo do tempo; ele é o piano de Aguiar Branco interrompido pelo canto lírico de Rangel ao som de jovem orquestra. Certo é que o zângão continua a voar, desde que lhe dêem música. E essa não falta no PSD. E, quando, por instantes, o silêncio se faz sentir, vale-lhe sempre o trombone do Jardim da Madeira para o despertar e o fazer voar. Ele sabe do que o zângão precisa. E passos de coelho são silenciosos...
sábado, 18 de julho de 2009
Polémica ajardinada
- Fernando Pessoa considerava a polémica cultural capaz de fazer avançar culturalmente o país; talvez, por isso, tenha despoletado a polémica com a sua profecia da chegada próxima do "supra-Camões".
- Não me digas que isso vem a propósito das polémicas do Jardim da Madeira? Ofendes Pessoa.
- Estive a pensar no assunto Jardim e concluí que, no momento em que o tema da polémica política não lhe interessa, ele lança alguns temas chocantes, para acender os ânimos e pôr o país a olhar para a sua figura verborreica. Contudo, podemos tirar proveito cultural da situação discursiva, se aprofundarmos culturalmente a questão. Ora pensa: neste momento, quantas pessoas terão ido ler a Constituição para contextualizar as suas palavras? Eu já fui. E tu?
- Eu li e compreendi, que o socialismo ficou na gaveta da História Portuguesa, na sétima revisão constitucional de 2005. De facto, só aparece no preâmbulo da Constituição, com carácter de fazer História:
"A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno".
- OK! Já entendi, por que decoraste essa parte. Nesse parágrafo ainda há uma palavra a incomodar Jardim: "socialista" - "sociedade socialista".
- Mas afinal ele está filiado na social-democracia que também tem como objectivo, a longo prazo, a sociedade socialista!
- Pois, se ele é membro destacado do PSD, ele sabe que no programa desse partido está escrito:"Continua a ser no espaço da social-democracia reformista que se podem conjugar, com equilíbrio, os valores da liberdade individual, da igualdade de oportunidades, da solidariedade e da justiça social».
- Centremo-nos na polémica Proposta de Revisão Constitucional do PSD Madeira. É certo que essa proposta pretende que o comunismo não seja tolerado na democracia portuguesa, tal como o fascismo não é?
- Foi isso que me pareceu. Mas a Constituição não proíbe ideologias. Para tirar isso a limpo, fiz o levantamento da palavra "fascista" na Constituição: aparece três vezes. A primeira, para dizer que a revolução se fez para derrubar o "regime fascista"; a segunda,no artigo 46, para proibir "organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista"; a terceira, no artigo 160, sobre a perda do mandato de Deputado, por "participação em organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista».
- Daí se conclui, a partir do preâmbulo, que, se a Revolução dos Cravos foi feita contra o fascismo, lógico é que se proíbam as suas organizações.
- O mesmo acontece na Alemanha.
- Parece-me que Jardim pretendeu pôr o país a pensar no assunto. Voltou a levantar o papão, nesta hora de convulsão eleitoral.
- Subiu-lhe à cabeça a vitória do PSD na Eleição para Deputados Europeus e achou que tinha chegado a sua hora de invadir o continente, pelo menos com a sua verbe rotunda.
- Parece-me que é assim que ele mede a temperatura à sua popularidade nacional...
- O seu desejo secreto é certamente a invasão.
- Mas afinal que escreveu ele nessa Proposta?
- Em "Outras Alterações Pontuais", o documento propõe «o esclarecimento de que a democracia não deve tolerar comportamentos e ideologias autoritárias e totalitárias, não apenas de Direita - como é o caso do Fascismo, esta expressamente prevista no texto constitucional - como igualmente de Esquerda - como vem a ser o caso do Comunismo, não previsto no texto constitucional - assim se justificando a referência a ambas as ideologias, no art.º46º, n.º4º e no art.º160º, n.º1, al.d), da CRP».
- Esqueceu a História Portuguesa ou quer já enterrá-la em vida?
- Assim parece.
- Não me digas que isso vem a propósito das polémicas do Jardim da Madeira? Ofendes Pessoa.
- Estive a pensar no assunto Jardim e concluí que, no momento em que o tema da polémica política não lhe interessa, ele lança alguns temas chocantes, para acender os ânimos e pôr o país a olhar para a sua figura verborreica. Contudo, podemos tirar proveito cultural da situação discursiva, se aprofundarmos culturalmente a questão. Ora pensa: neste momento, quantas pessoas terão ido ler a Constituição para contextualizar as suas palavras? Eu já fui. E tu?
- Eu li e compreendi, que o socialismo ficou na gaveta da História Portuguesa, na sétima revisão constitucional de 2005. De facto, só aparece no preâmbulo da Constituição, com carácter de fazer História:
"A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno".
- OK! Já entendi, por que decoraste essa parte. Nesse parágrafo ainda há uma palavra a incomodar Jardim: "socialista" - "sociedade socialista".
- Mas afinal ele está filiado na social-democracia que também tem como objectivo, a longo prazo, a sociedade socialista!
- Pois, se ele é membro destacado do PSD, ele sabe que no programa desse partido está escrito:"Continua a ser no espaço da social-democracia reformista que se podem conjugar, com equilíbrio, os valores da liberdade individual, da igualdade de oportunidades, da solidariedade e da justiça social».
- Centremo-nos na polémica Proposta de Revisão Constitucional do PSD Madeira. É certo que essa proposta pretende que o comunismo não seja tolerado na democracia portuguesa, tal como o fascismo não é?
- Foi isso que me pareceu. Mas a Constituição não proíbe ideologias. Para tirar isso a limpo, fiz o levantamento da palavra "fascista" na Constituição: aparece três vezes. A primeira, para dizer que a revolução se fez para derrubar o "regime fascista"; a segunda,no artigo 46, para proibir "organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista"; a terceira, no artigo 160, sobre a perda do mandato de Deputado, por "participação em organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista».
- Daí se conclui, a partir do preâmbulo, que, se a Revolução dos Cravos foi feita contra o fascismo, lógico é que se proíbam as suas organizações.
- O mesmo acontece na Alemanha.
- Parece-me que Jardim pretendeu pôr o país a pensar no assunto. Voltou a levantar o papão, nesta hora de convulsão eleitoral.
- Subiu-lhe à cabeça a vitória do PSD na Eleição para Deputados Europeus e achou que tinha chegado a sua hora de invadir o continente, pelo menos com a sua verbe rotunda.
- Parece-me que é assim que ele mede a temperatura à sua popularidade nacional...
- O seu desejo secreto é certamente a invasão.
- Mas afinal que escreveu ele nessa Proposta?
- Em "Outras Alterações Pontuais", o documento propõe «o esclarecimento de que a democracia não deve tolerar comportamentos e ideologias autoritárias e totalitárias, não apenas de Direita - como é o caso do Fascismo, esta expressamente prevista no texto constitucional - como igualmente de Esquerda - como vem a ser o caso do Comunismo, não previsto no texto constitucional - assim se justificando a referência a ambas as ideologias, no art.º46º, n.º4º e no art.º160º, n.º1, al.d), da CRP».
- Esqueceu a História Portuguesa ou quer já enterrá-la em vida?
- Assim parece.
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